João Cabral de Melo Neto
Poeta central da Geração de 45, João Cabral de Melo Neto destacou-se por uma poesia de rigor estético, tornado-se um dos mais reconhecidos poetas brasileiros.
Biografia
João Cabral de Melo Neto nasceu em 9 de janeiro de 1920 na casa do avô materno, em Recife, estado de Pernambuco. Pertencia a uma aristocrática família de proprietários rurais vinculados à economia açucareira. Era primo de Manuel Bandeira e de Gilberto Freyre. Logo após o parto, retornou com os pais para o engenho localizado na Zona da Mata, no município de São Lourenço. Os engenhos estavam em decadência, pois somente plantavam a cana, ficando a produção do açúcar concentrada em usinas industriais.João atravessou os anos de menino na liberdade dos engenhos. Cedo revelou-se o traça mais marcante de sua personalidade, a timidez. Junto com o irmão, tomou aulas particulares para ser alfabetizado. Lia folhetos de cordel para os empregados do engenho, sendo proibido a continuar pelos pais, pois ao cordel associava-se o estigma de literatura vulgar.
Com a Revolução de 1930, instituindo a Era Vargas, o pai de João Cabral, após uma breve perseguição política e prisão, decidiu vender seus engenhos, mudando-se a família para o Recife. João ingressou no Colégio Marista, onde completou os estudos primário e secundário, guardando lembranças desagradáveis, como a da missa cantada semanal. Não recebeu o certificado de conclusão do curso - em 1935 - porque o pai, em dificuldades financeiras, tinha várias mensalidades atrasadas.
Jogador de futebol desde pequeno, João Cabral integrava a esquadra amadora do time América do Recife. Venceu o campeonato juvenil, por força do acaso, vestindo a camisa do time adversário do Santa Cruz. Foi obrigado a abandonar o futebol aos dezesseis anos, idade em que passou a sofrer de enxaqueca crônica - condição que o acompanharia ao longo da vida -, com episódios de intensa dor de cabeça.
Após concluir o secundário, em vez de ingressar na universidade, dedicou-se a diversos empregos: auxiliar de escritório, escriturário e funcionário público. Nesse período, cresceu o seu interesse pela literatura, frequentando, a partir de 1937, o círculo de autores que se reunia no Café Lafayette. João Cabral descobriu as obras do modernismo brasileiro e começou a escrever poesia.
Quando contava com 22 anos de idade, transferiu-se junto com a família para o Rio de Janeiro, então capital federal, em 1942. Nesse ano, publicou seu primeiro livro de poesia, "Pedra do Sono". Introduzido no meio literário por Murilo Mendes, João Cabral travou conhecimento com Carlos Drummond de Andrade e participava de reuniões no consultório de Jorge de Lima, ponto de encontro de intelectuais.
Trabalhou no Departamento Administrativo do Serviço Público - DASP - até que, em 1945, prestou concurso para o Itamarati. Daí por diante, seguiria a carreira diplomática até a aposentadoria, servindo, além de Brasília e Rio de Janeiro, em 12 cidades estrangeiras: Barcelona, Londres, Sevilha, Marselha, Madri, Genebra, Berna, Assunção, Dacar, Quito, Tegucigalpa, Porto.
Durante o segundo governo de Getúlio Vargas, no contexto da Guerra Fria, após uma denúncia, em 1953 João foi acusado, junto a outros quatro diplomatas, de criar uma célula comunista dentro do Ministério das Relações Exteriores.
Parecer do Conselho de Segurança Nacional recomendava colocar os diplomatas em "disponibilidade inativa" - uma espécie de suspensão não remunerada, o que se realizou através de um despacho presidencial. Mas os diplomatas entraram com ações no Supremo Tribunal Federal, revertendo as punições e sendo reintegrados aos cargos no Itamaraty em 1954.
Alcançada a estabilidade profissional, João Cabral pode dedicar-se nas décadas seguintes à poesia, publicando dezenas de livros, a grande maioria de poesia, o que lhe rendeu diversos prêmios literários. Como diplomata, era pouco sociável, recolhido à sua residência e dedicando-se à sua obra. A permanência na Espanha, especialmente a cidade de Sevilha, teve impacto profundo em sua obra.
A segunda metade da década de 1960 constituiu o auge literário de João Cabral. O livro "Morte e vida severina", de 1955, foi adaptado ao teatro, o que trouxe maior exposição à obra do poeta. Lançou, em 1965, o livro "A educaçao pela pedra", considerado um dos mais importantes em sua obra. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1968, ocupando a cadeira nº 37.
A segunda metade da década de 1960 constituiu o auge literário de João Cabral. O livro "Morte e vida severina", de 1955, foi adaptado ao teatro, o que trouxe maior exposição à obra do poeta. Lançou, em 1965, o livro "A educaçao pela pedra", considerado um dos mais importantes em sua obra. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1968, ocupando a cadeira nº 37.
Transferido em 1972 para Dacar, no Senegal, onde permaneceria por sete anos, João Cabral assumiu uma rotina de reclusão, permanecendo em casa após o expediente. Agravou-se seu estado de saúde, incluindo, além de depressão, doenças como polineurite, crises hepáticas, alergia. Segundo seu próprio relato, a criação poética ficava cada vez mais difícil, exigindo um demorado exercício de lapidação do texto.
Perdeu a primeira mulher para o câncer em 1986, levando-o a permanecer meses deprimido no Rio de Janeiro. Durante o luto, conheceu a segunda mulher, com quem se casaria no mesmo ano. Voltou à cidade do Porto, seu último posto internacional, antes de retornar definitivamente para o Rio de Janeiro em 1897.
Além da bebida alcoólica, tornou-se um inveterado fumante aos 69 anos de idade. Submeteu-se a uma operação para tratar de uma úlcera, mas descumpria as ordens médicas de interromper o consumo de bebidas. Aposentou-se do posto de embaixador em 1990, ano em que publicaria o último livro, "Sevilha andando". A saúde degradava-se, incluindo uma doença degenerativa que o levou à cegueira, fazendo a depressão ainda mais aguda. Na clausura de seu apartamento de janelas fechadas, João Cabral faleceu em 9 de outubro de 1999, legando uma das obras mais influentes da poesia brasileira moderna.
Obras e poemas
Do livro 'Pedra do Sono', 1942Noturno | Composição | Poema | Espaço jornal | Homenagem a Picasso | Janelas | Homem falando no escuro | Marinha | A poesia andando | Os manequins | Poema deserto | Os olhos
Do livro ''O Engenheiro', 1945
Do livro ''O Engenheiro', 1945
Do livro 'Psicologia da Composição', 1947
'Essa lâmina adversa' | 'Essa bala que um homem' | 'Assim como uma bala' | Cemitério pernambucano (Nossa Senhora da Luz) | Cemitério pernambucano (São Lourenço da Mata)
Do livro 'Quaderna', 1959
Imitação da água | Rio e/ou poço | Cemitério Pernambucano (Custódia) | Litoral de Pernambuco | Paisagens com cupim (trechos) | Cemitério Paraibano | Paisagem pelo telefone | Cemitério alagoano
Do livro 'Terceira feira', 1961
Do livro 'A Educação pela Pedra', 1966
Habitar o tempo | Os reinos do amarelo | Rios sem discurso | Agulhas | Mesma mineira em Brasília | Catar feijão | Fábula de um arquiteto | Tecendo a manhã | A educação pela pedra | Na morte dos rios | O mar e o canavial
Do livro 'Museu de Tudo', 1975
Outro retrato de Andaluza | Duplicidade do tempo | A arquitetura da cana-de-acúcar | Catecismo de Berceo | Estátuas jacentes | O torcedor do América F. C. | A escultura de Mary Vieira | O museu de tudo | O sol no Senegal
Do livro 'A Escola das Facas', 1980
Moenda de usina | A cana e o século dezoito | As facas Pernambucanas | A cana de açúcar | Bairra do Sirinhaém | Olinda revisited | A escola das facas | A voz do coqueiral | O fogo no canavial | A voz do canavial | Menino de engenho | O que se diz ao editor a propósito de poemas
Do livro 'Agrestes', 1985
A travessia do Atlântico | O ovo podre | Direito à morte | Morrer de avião | A cama e um automóvel | Como a morte se infiltra | As astúcias da morte | O defunto amordaçado | Conselho do conselheiro | O ritmo do Chimborazo | Cemitério na cordilheira | Uma enorme rês deitada | Um sono sem frestas | Afogado nos Andes | Viver nos Andes no Páramo | Os cajueiros da Guiné-Bissau | A água da areia | O baobá no Senegal | A literatura como turismo | De um jogador brasileiro a um técnico espanhol | Falar com coisas | A luz de Sevilha | Portrait of a lady | Lembrando Manolete | A rede ou o que Sevilha não conhece | Uma evocação de Recife | As latrinas do Colégio Marista do Recife | O nada que é
Do livro 'Crime na Calle Relator', 1987
Sevilha e o progresso | Miguel Baez, "Litri" | Cidade cítrica | Um bairro de Sevilha | Hospital de La Caridad | Calle Sierpes | Sevilha e a Espanha | Touro andaluz | Presença de Sevilha | Despertar com sevilhana | Ainda Sevilha ao telefone | Retrato | Lições de Sevilha | Sevilha ao telefone | Sol negro | Mulher da Panadería | Sevilha de bolso | Na Cidade do Porto | Sevilha andando I | Cidade de nervos | Verão de Sevilha | A barcaça | Meu álcool | A sevilhana que não se sabia
Para consulta
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