Poema

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Poema de João Cabral de Melo Neto



Meus olhos têm telescópios
espiando a rua,
espiando minha alma
longe de mim mil metros.

Mulheres vão e vêm nadando
em rios invisíveis.
Automóveis como peixes cegos
compõem minhas visões mecânicas.

Há vinte anos não digo a palavra
que sempre espero de mim.
Ficarei indefinidamente contemplando
meu retrato eu morto.



Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Pedra do Sono", 1942.


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