Diálogo - João Cabral de Melo Neto
Poema de João Cabral de Melo Neto
A - O canto da Andaluzia,
é agudo com seta
no instante de disparar
ainda mais aguda e reta.
B - Mas quem atira essa seta
de tão penetrante fio
pensa que a faca melhor
é a que recorta o vazio.
A - É um canto em que se sente
o que uma espada no frio,
desembainhada, sem mesmo
ter ferrugem como abrigo.
B - Mas é espada que não corta
e que somente se afia,
que deserta se incendeia
em chama que arde sozinha.
A - Tem alfinetes nas veias
que nas veias se atropelam,
tem mantas de carne viva
cobrindo sua alma inteira.
B - Mas o timbre desse canto
que acende na própria alma
o cantor da Andaluzia
procura-o no puro nada,
como à procura do nada
é a luta também vazia
entre o toureiro e o touro,
vazia, porém precisa,
em que se busca afiar
em terrível parceria
no fio agudo das facas
o fio frágil da vida.
A - Até o dia em que essa lâmina
abandone seu deserto,
encontre o avesso do nada,
tenha enfim seu objeto.
Até o dia em que essa lâmina,
essa agudeza desperta,
ache, no avesso do nada,
o uso que as facas completa.
Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Duas águas", 1956.
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