I - João Cabral de Melo Neto

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Poema de João Cabral de Melo Neto



Saio do meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.




Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Psicologia da composição", 1947.
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