"Generaciones y Semblanzas" (trechos)

Imagem de João Cabral de Melo Neto

Poema de João Cabral de Melo Neto



Há gente que se gasta
de dentro para fora.
E há gente que prefere
gastar-se no que choca:

nesta pertence aquela
sempre vertiginosa
que parece habitar
num corpo sobre rodas;

gente que não consegue
parar nenhuma hora
e que assim se aproveita
de toda sua corda

para andar se atirando
contra as coisas em volta,
talvez com a esperança
que uma seja pistola.

Talvez, é por prezar
o mundo em que se mova
(a espessura tranquila
de uma coisa que pousa,

a mansidão da coisa
que aceita virar outra)
que essa gente se atira
aos trancos entre as coisas.

Não: é porque ouviriam,
se parassem uma hora,
a voz da alma vazia
dobrando dentro, morta,

a voz que dobra em muitos
mas que neles redobra
porque dentro de crânios
vaziíssimos, de abóbada.

*
Há gente que se infiltra
dentro de outra, e aí mora,
vivendo do que filtra,
sem voltar para fora.

E passa uma outra gente
que se infiltra e retorna,
vivendo com o de dentro
que subtraiu, na volta.

É coisa complicada
dizer, pelas manobras,
o parasita simples
e o de alma insidiosa;

é igual o movimento
de raiz cavilosa,
aliás, menos de raiz
que de gusano, ou cobra,

e igual a habilidade
de imiscuir-se, untuosa,
e de coar pelos poros
sua natureza osmótica.

Mas se o primeiro tipo
se satisfaz com a sombra
e no corpo que o abriga
vegeta mudo, em coma,

o outro, mais cedo ou tarde,
retorna e desabrocha:
na flor da delação,
a única em que flora,

flor toda à imagem dele,
furta-cor, furta-forma,
flor de planta que não
pode florir, e aborta.



Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Serial", 1961.


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