O outro rio: o Ebro - João Cabral de Melo Neto

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Poema de João Cabral de Melo Neto



Vou quase sempre entre o gesso
do esqueleto do animal
que veio cair de sede
nestas terras de Aragão.

O gesso também perece,
não morde mais como a cal.
Dir-se-ia que até a pedra
morreu de sede e de sol.

Vou entre as estreitas hortas,
fresco o lábil vegetal,
do corredor tão estreito
que a vida habita em Aragão,

entre casas extraviadas
no deserto literal
e que ao passar alinhavo
com água de meu carretel,

entre vilas desmaiadas
(hipnose de sol e azul)
e aldeias de entranhas secas
feitas do gesso geral

(sem que a água jamais reflita,
água de cego cristal,
as torres de barro opaco
que o mouro abriu a cinzel).

Disponho de um leito largo
como cama de casal,
ma é pouco deste leito
que cubro com meu lençol.

Pois assim mesmo tão fraco
no duro chão mineral,
só veia regando ainda
curtido couro animal,

sou destas terras ossudas
líquida espinha dorsal
e até mesmo fui trincheira
(quando do front de Aragão).




Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Duas águas", 1956.
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