Cemitério Pernambucano (Custódia)

Imagem de João Cabral de Melo Neto

Poema de João Cabral de Melo Neto



É mais prático enterrar-se
em covas feitas no chão:
ao sol daqui, mais que covas,
são fornos de cremação.

Ao sol daqui, as covas logo
se transformam nas caieiras
onde enterrar certas coisas
para, queimando-as, fazê-las:

assim, o tijolo ainda cru,
as pedras que dão a cal
ou a capoeira raquítica
que dá o carvão vegetal.

Só que nas covas caieiras
nenhuma coisa é apurada:
tudo se perde na terra,
em forma de alma, ou de nada.



Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Quaderna", 1960.


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