Poesia Brasileira



A poesia transplantada

A formação do Brasil e, como não podia deixar de ser, de sua poesia é um fenômeno colonial. Durante os primeiros séculos da presença do colonizador no território brasileiro, não havia uma "literatura brasileira" autônoma, mas um prolongamento da cultura portuguesa.

Segundo a tese do crítico literário Antônio Cândido, a literatura brasileira - incluindo a poesia - começa a se formar quando, na colônia brasileira, organiza-se um sistema literário. Isso faz com que os escritores deixem de ser vozes isoladas, extensões ultramarinas da cultura portuguesa.

Composto por autor, obra e público, o sistema literário local constitui um corpo de consciência autônoma, ainda que operando sob os moldes estéticos europeus. Cândido identifica os primórdios de um sistema literário local no Arcadismo. Ele se desenvolveria gradualmente, até distinguir-se como um sistema nacional e autônomo.

A formação da poesia

A poesia no Brasil consolida-se, na perspectiva do crítico literário Alfredo Bosi, através do movimento da imitação seguida pela adaptação. A imitação predominaria no Período Colonial, em que a sensibilidade de autores mesclava o sentimento de pertencimento à metrópole e as impressões diante da terra nova.

Para Bosi, apesar dos primeiros sinais de um sistema literário local, em especial na forma de academias literárias, surgir durante o Arcadismo, é apenas com o Romantismo que a ideia de uma identidade brasileira torna-se um projeto estético consciente, ainda que inicialmente utópico e idealizado.

A poesia brasileira nasce, portanto, de um esforço de falar uma língua estrangeira, o português, para expressar uma sensibilidade que deixava de ser inteiramente europeia. Adaptou-se à realidade local, ganhando uma delimitação própria.

O silenciamento do não europeu

A historiografia tradicional de Antônio Cândido, Alfredo Bosi e outros se insere na tradição teórica da colonialidade, pela qual empregam-se perspectivas e critérios europeus para conceitualizar a atividade poética e estabelecer uma versão de história. Ela é inevitavelmente contraditória.

Tratam-se de esforços críticos ainda presos a moldes europeus, que buscam mapear a formação de uma identidade brasileira distinta da européia. Veem o mundo por meio de lentes europeizantes, gerando leituras enviesadas.

Em vez de considerar os textos jesuíticos ou o barroco de Gregório de Matos como primeiros exemplos poéticos, uma abordagem crítica, decolonial, exige reconhecer que o território já era habitado por culturas dotadas de complexos sistemas simbólicos e poéticos.

Um dos instrumentos de domínio do colonizador era desconsiderar, por não estarem fixadas em escrita alfabética, expressões orais e cosmogonias indígenas. A colonialidade estabeleceu a escrita e os padrões estéticos europeus como os únicos critérios estéticos, relegando a rica produção pré-colonial ao status de folclore ou curiosidade antropológica.

O mito da universalidade

A poesia brasileira, portanto, ainda encontra-se cindida entre a matriz europeia e a possibilidade de uma sensibilidade autóctone. A identidade brasileira, tão almejada por românticos e modernistas, porque ainda espelha o estrangeiro, não emancipou-se.

Tome-se o exemplo do conceito de universalidade. Na tradição acadêmica e crítica, cujo arcabouço teórico construiu-se a partir do apagamento de outras culturas, o "Universal" corresponde apenas ao "Provincial Europeu", apresentado com uma máscara de neutralidade. Quando a academia exige que o poeta brasileiro atinja um padrão universal, ela está, frequentemente, exigindo que ele emule o cânone ocidental.

A identidade brasileira seguirá entre a cópia, apagando-se na submissão ao estrangeiro, e a afirmação de sua realidade sensível, que só pode ocorrer por meio de resistência e ruptura com as estruturas de poder. Carlos Drummond de Andrade quase acertou o alvo: a luta vai muito além das palavras.

Outro fundamentos e reflexões

  • O que é poesia: uma história plural do fazer poético: entenda as transformações do conceito de poesia ao longo dos séculos;
  • Poesia e poema: origem, significado e distinções: uma análise crítica sobre poesia e poema e suas relações com a oralidade e a escrita;
  • O que é lirismo: como se formou a noção de lirismo enquanto expressão da subjetividade no poema;
  • Para quê periodizar a literatura: breve discussão sobre a necessidade e os limites de diversas interpretações da história literária brasileira.