Poema deserto - João Cabral de Melo Neto

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Poema de João Cabral de Melo Neto



Todas as transformações
todos os imprevistos
se davam sem o meu consentimento.

Todos os atentados
eram longe de minha rua.
Nem mesmo pelo telefone
me jogavam uma bomba.

Alguém multiplicava
alguém tirava retratos:
nunca seria dentro de meu quarto
onde nenhuma evidência era provável.

Havia também alguém que perguntava:
Por que não um tiro de revólver
ou a sala subitamente às escuras?

Eu me anulo me suicido,
percorro longas distâncias inalteradas,
te evito te executo
a cada momento e em cada esquina.




Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Pedra do Sono", 1942.
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