Cemitério pernambucano (Toritama) - João Cabral de Melo Neto

Imagem de João Cabral de Melo Neto

Poema de João Cabral de Melo Neto



Para que todo este muro?
Por que isolar estas tumbas
do outro ossário mais geral
que é a paisagem defunta?

A morte nesta região
gera dos mesmos cadáveres?
Já não os gera de caliça?
Terão alguma umidade?

Para que a alta defesa,
alta quase para os pássaros,
e as grades de tanto ferro,
tanto ferro nos cadeados?

- Deve ser a sementeira
o defendido hectare,
onde se guardam as cinzas
para o tempo de semear.




Fonte: "Serial e antes", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Duas águas", 1956.
Veja a biografia, lista de poemas e artigos sobre João Cabral de Melo Neto.