Moenda de usina

Imagem de João Cabral de Melo Neto

Poema de João Cabral de Melo Neto



Clássica, a cana se renega
ante a moenda (morte) da usina:
nela, antes esbelta, linear,
chega despenteada e sem rima.
(Jogada às moendas dos banguês
onde em feixes de estrofes ia,
não protestava contra a morte
nem contra o que a morte seria).
Na usina, ela cai de guindastes,
anárquica, sem simetria:
e até que as navalhas da moenda
quebrando-a, afinal, a paginam,
a cana é trovoada, troveja,
perde a elegância, a antiga linha,
estronda com o sotaque gago
de metralhadora, desvaria.
Não fossem as saias de ferro
da antemoenda que a canalizam,
quebrar-lhe os ossos baralhados
faria explodir toda a usina.
Nas moendas derradeiras tomba
já mutilada, em ordem unida:
não é mais a cana multidão
que ao tombar é povo e não fila;
ao matadouro final chega
em pelotão que se fuzila.



Fonte: "A educação pela pedra e depois", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A escola das facas", 1980.

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