Beco da facada

Imagem de João Cabral de Melo Neto

Poema de João Cabral de Melo Neto



I.

No escuro Beco da Facada
(porque tal nome, se ignorava,

mas porque tão pernambucano
era sem porquês, sem quandos)

nunca viu-se alma do outro mundo:
mas o medo armado no punho,

se andava o beco longo e escuro
o mais arredado dos muros.

Sentia, mais que numa rua,
numa emboscada Um se aventura,

onde faca que não se via
retesa a noite e a faz mais fria.

Mas faca só tinha no nome:
nunca se vira sangue de homem

derramado entre as ricas chácaras
que de cada lado ladravam.


II.

'Da facada', dizia a placa.
Portanto nele andou uma faca.

O nome não era anedota:
alguma faca ali voou, solta.

Cada antigo sabia o que houve,
que um outro qual a crer negou-se.

A forma exata 'da facada'
dava lugar a versões mais vagas,

que como fungos, cogumelos
brotassem na noite do beco,

distintas em tudo, senão
em que havia faca em ação.

(Certa noite, naquele beco,
de facas se voando, no medo,

apesar do silêncio de faca,
Um assassinou Outro, a bala).



Fonte: "A educação pela pedra e depois", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Crime na Calle Relator", 1987.

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