Cecília Meireles está entre as principais vozes da poesia brasileira do século XX. Além de poeta, foi professora, educadora e tradutora.
Biografia
Cecília Benevides de Carvalho Meirelles nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901, filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, e de Matilde Benevides Meireles, professora da rede pública de ensino primário. A doença havia levado os dois irmãos mais velhos e, três meses antes de seu nascimento, levou-lhe também o pai. Cecília perdeu a mãe quando tinha três anos de idade, ficando completamente órfã.
Tomou-a sob seus cuidados a avó materna, Jacinta Garcia Benevides, originária da Ilha de São Miguel dos Açores. Viúva, Jacinta era uma mulher religiosa, que rezava todos os dias. Evitava que a neta saísse à rua para brincar com outras crianças, de modo a prevenir que adoecesse, o que cobriu-lhe a infância de silêncio e solidão. Cecília afirmaria que experimentar perdas desde pequena trouxe intimidade com a morte, imprimindo em sua personalidade o sentimento da transitoriedade de tudo.
Ao mesmo tempo, a infância deixaria recordações maravilhosas, guardando-se como um tempo repleto de apreciadas impressões. Tanto da chácara onde morava, com o limo dos tanques, as árvores e as frutas maduras, bichos como os sabiás de canto matinal e as lagartixas dos muros, quanto das histórias do folclore popular contadas pela ama Pedrina, que dizia conhecer pessoalmente a Mula sem cabeça, ou das cantigas e parlendas ensinadas pela avó.
Cecília brincava com as roupas e as coisas da mãe. Cedo aprendeu a ler, interessando-se pelos livros maternos. Encantava-se com gramáticas, partituras e obras de música. Fez o curso primário na Escola Pública Municipal Estácio de Sá, onde era uma aluna esforçada e de bom desempenho. Na formatura, foi condecorada com uma medalha pelo Inspetor Escolar Olavo Bilac. Entrou para o curso de magistério da Escola Normal do Distrito Federal - na época, o Rio de Janeiro - e para os cursos de canto e violino do Conservatório de Música, decidindo-se concentrar no primeiro, formando-se com distinção em 1917.
A carreira como professora primária teve início em 1918, após ser nomeada para a Escola Pública Deodoro, da rede municipal de ensino. Publicou no ano seguinte o primeiro livro de poesia, 'Espectros', sob a influência da estética parnasiana, e que entraria para a clandestinidade: Cecília jamais reeditaria em vida nem faria mais referência ao seu livro de estreia, que permaneceu praticamente desaparecido.
Por meio de amigos em comum, ela conheceu o renomado ilustrador modernista português Fernando Correia Dias. Desembarcado de Coimbra no Rio de Janeiro em 1914, ele tornou-se colaborador dos principais periódicos cariocas, além de elaborar capas de livros para editoras. Casaram-se em 1922 e tiveram três filhas.
Ao longo da década de 1920, Cecília publicaria outros livros de poesia e, preocupada com a escassez de obras didáticas, também livros para o ensino em escolas primárias. Começou a contribuir com veículos da imprensa, escrevendo artigos sobre o tema da educação.
Por meio de sua coluna de jornal, que se estendeu até janeiro de 1933, Cecília converteu-se numa das principais interlocutoras em favor dos avanços na pedagogia e da modernização do sistema de ensino brasileiros. Dessa forma, tomou parte na ascensão do grupo de educadores de proposta modernizante - oposto ao grupo conservador, ligado à igreja católica - para a administração da Instrução Pública da capital federal.
Assumiu, em 1934, cargo no Instituto de Educação do Distrito Federal, ano em que inaugurou a primeira biblioteca infantil pública no Brasil, denominada de Pavilhão Mourisco. Em setembro do mesmo ano, viajou com o marido para Portugal, onde proferiu uma série de conferências em Lisboa e Coimbra.
O retorno ao Brasil, no início de 1935, foi marcado pelo reversão dos ventos do destino. Tomado por uma crise depressiva, o marido de Cecília cometeu suicidou, enforcando-se na sala de estar de casa. Além dessa tragédia pessoal, no âmbito político o conservadorismo prevalecia. Defensores da reforma educacional foram afastados da Secretaria de Educação.
A biblioteca Pavilhão Mourisco funcionou somente até 1937, quando foi invadida pela polícia do Estado Novo, sob ordens do interventor federal do Rio de Janeiro. Acusada de conter um livro de conotação comunista - Tom Sawyer, de Mark Twain -, a biblioteca foi desativada, o que matérias dos jornais da época denunciaram como infundada motivação política.
Nesse período de profundo sofrimento e de atribulações, Cecília recebeu uma carta anônima. A pessoa desconhecida recomendava que alterasse o sobrenome, retirando uma letra l, para obter maior leveza na vida. Assim ela procedeu; o Meirelles perdeu uma consonante, passando a constar um ele só. E após a perda do marido e o episódio da mudança do sobrenome, ela elaborou a coletânea de poemas do livro que a elevaria como um dos principais nomes da poesia nacional, Viagem. O livro conquistou o Prêmio Olavo Bilac de poesias da Academia Brasileira de Letras em 1938, sendo publicado em Portugal no ano seguinte.
A vitória veio com certa resistência de membros da Academia, vinculados ao conservadorismo educacional contra o qual Cecília havia se oposto. Apesar do parecerista do concurso, Cassiano Ricardo, notar o contraste de qualidade entre o livro de Cecília e os demais contendores, os acadêmicos Francisco Magalhães e Alceu Amoroso Lima votaram contra a premiação. Além disso, escolhida para discursar em nome dos ganhadores nas demais categorias, Cecília decidiu não se pronunciar devido às censuras impostas pela Academia.
A publicação de Viagem em 1939 estrearia a fase madura de Cecília Meireles, na qual produziria uma das principais obras da poesia brasileira. Ela retomou a função de professora de escola primária. Em 1940, contraiu matrimônio pela segunda vez, com o professor e engenheiro Heitor Vinicius da Silveira Grillo. Diretor da Escola Nacional de Agronomia, mudaram-se para a zona rural onde localizava-se a escola.
Nas próximas duas décadas, a poeta teria uma atividade intelectual e literária intensa. Publicou inúmeros livros de poesia, como, por exemplo, Romanceiro da Inconfidência, elaborado após uma longa estadia em Ouro Preto, bem como peças de teatro. Escreveu para diversos jornais e revistas. Dedicou-se constantemente aos temas da literatura infantil e da educação, constituindo-se uma das referências nacionais, bem como ao do folclore.
Tema que apreciava, Cecília dedicou a folclore crônicas, artigos e conferências. Participou da Comissão Nacional do Folclore desde sua fundação, e secretariou, em 1951, o 1° Congresso Nacional de Folclore. Traduziu obras de poesia, romance e teatro, integrou programas de rádio sobre cultura e literatura, e viajou para os Estados Unidos, pela América Latina, Europa e Ásia.
Em 1964, Cecília Meireles publicou Ou isto ou aquilo, seu livro de poesia infantil mais conhecido. Vítima de um câncer, ela faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de novembro de 1964, dois dias depois de completar 63 anos. No ano seguinte, em 1965, recebeu postumamente o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, concedido pelo conjunto da obra, foi a primeira mulher a receber tal prêmio.
Obras
Do livro 'Nunca mais... E poema dos Poemas', 1923
Do livro 'Viagem', 1939
Canção (No desequilíbrio) | Som | Aceitação | Canção (Nunca eu tivera) | Canção (Pus o meu sonho) | Motivo | Despedida | Metamorfose | Miséria | Epigrama n. 12 (a engrenagem) | Timidez | A menina enferma | Passeio | Epigrama n. 11 (a ventania misteriosa) | Epigrama n. 10 (cantar de beira de rio) | Marcha | Origem | Quadras | Cantar | Epigrama n. 9 (o vento voa) | Grilo | Medida da significação | Cantiga | Epigrama n. 8 (encostei-me a ti) | Serenata (permite que feche) | Horóscopo | Luar | Atitude | Descrição | Valsa | Campo | Epigrama n.º5 (gosto de gota) | Cantiguinha | Fim | Solidão | Conveniência | Serenata (repara) | Música | Pausa | Retrato | Anunciação | Noite
Do livro 'Vaga música', 1942
Canção mínima | Velho estilo | Lembrança rural | Canção suspirada | Partida | Inscrição na areia | O ressuscitante | Canção do caminho | Exílio | Viagem | Vigília do senhor morto | Epigrama (a serviço) | Regresso | Ritmo | Confissão | Epigrama do espelho infiel | Canção quase inquieta | Encomenda | Para uma cigarra | Campos verdes | Canção da menina antiga | Canção excêntrica | Mar em redor | Epitáfio da navegadora | Eco | Canção do deserto
Do livro 'Mar absoluto', 1945
Do livro 'Retrato natural', 1949
Do livro 'O aeronauta', 1952
Do livro 'Romanceiro da Inconfidência', 1953
Do livro 'Canções', 1956
Do livro 'Metal rosicler', 1960
'Em seda tão delida' | 'Cada palavra' | 'Não temos bens' | 'Chovem duas chuvas' | 'Levam-me estes sonhos' | 'Estudo a morte' | 'Não perguntavam por mim'
Do livro 'Poemas escritos na Índia', 1961
Do livro 'Solombra', 1963
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