Origem

Imagem de Cecília Meireles

Poema de Cecília Meireles



O tempo gerou meu sonho na mesma roda de alfareiro
que modelou Siriús e a Estrela Polar.
A luz ainda não nasceu, e a forma ainda não está pronta:
mas a sorte do enigma já se sente respirar.

Não há norte nem sul: e só os ventos sem nome
giram com o nascimento - para o fazerem mais veloz.
E a música geral, que circula nas veias da sombra,
prepara o mistério alado da sua voz.

Meu sonho quer apenas o tamanho da minha alma,
- exato, luminoso e simples como um anel.
De tudo quanto existe, cinge somente o que não morre,
porque o céu que o inventou cantava sempre eternidade
rodando a sua argila fiel.



Fonte: "Viagem", Editora Ocidente, 1942.
Originalmente publicado em: "Viagem", 1939.

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