Beatitude - Cecília Meireles
Poema de Cecília Meireles
Corta-me o espírito de chagas!
Põe-me aflições em toda a vida:
Não me ouvirás queixas nem pragas...
Eu já nasci desiludida,
De alma votada ao sofrimento
E com renúncias de suicida...
Sobre o meu grande desalento,
Tudo, mas tudo, passa breve,
Breve, alto e longe como o vento...
Tudo, mas tudo, passa leve,
Numa sombra muito fugace,
- Sombra de neve sobre neve... –
Não deixando na minha face
Nem mais surpresas nem mais sustos:
- É como, até, se não passasse...
Todos os fins são bons e justos...
Alma desfeita, corpo exausto,
Olho as coisas de olhos augustos...
Dou-lhes nimbos irreais de fausto,
Numa grande benevolência
De quem nasceu para o holocausto!
Empresto ao mundo outra aparência
E às palavras outra pronúncia,
Na suprema benevolência
De quem nasceu para a Renúncia!
Fonte: "Poesia completa", Editora Nova Fronteira, 2001.
Originalmente publicado em: "Nunca mais e Poemas dos poemas", Livraria Leite Ribeiro, 1923.
