Despedida

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Poema de Cecília Meireles



Vais ficando longe de mim
como o sono nas alvoradas;
mas há estrelas sobressaltadas
resplandecendo além do fim.

Bebo essas luzes sem tristeza
porque sinto bem que elas são
o último vinho e o último pão
de uma definitiva mesa.

E olho par a fuga do mar
e para a ascensão das montanhas
e vejo como te acompanhas,
- para me desacompanhar.

As luzes do amanhecimento
acharão toda a terra igual.
- Tudo foi sobrenatural,
sem peso de contentamento,

sem noções do mal nem do bem,
- jogo de pura geometria
que eu pensei que se jogaria,
mas não se joga com ninguém.



Fonte: "Viagem", Editora Ocidente, 1942.
Originalmente publicado em: "Viagem", 1939.

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