Silva Alvarenga

Silva Alvarenga, poeta do Arcadismo brasileiro

Silva Alvarenga

Figura representativa do Arcadismo brasileiro, Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749–1814) destacou-se pela busca da naturalidade em sua poesia, valorizando a simplicidade e a expressão. Sua obra introduz elementos depois explorados pelo romantismo.

Biografia

Manuel Inácio da Silva Alvarenga nasceu em Vila Rica - atual Ouro Preto - em 1749. Era filho de  Ignácio da Silva Alvarenga, músico de poucos recursos. Embora o pai possuísse formação artística, recusou-se a permitir que o filho seguisse a carreira musical, buscando-lhe uma profissão mais estável.

Silva Alvarenga realizou seus primeiros estudos no Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte, em Mariana. A escassez financeira atrasou a educação formal do jovem, superada graças ao esforço paterno e à ajuda de benfeitores, que possibilitaram sua ida ao Rio de Janeiro, onde concluiu os estudos preparatórios.

Na capital colonial, Silva Alvarenga destacou-se socialmente por seu talento musical, suas qualidades pessoais e sua conversação espirituosa, ampliando rapidamente seu círculo de relações, apesar dos preconceitos raciais da época. Em 1771, aos 22 anos, partiu para Portugal com o objetivo de ingressar na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra.

Chegou num momento decisivo: um ano após a grande reforma universitária promovida pelo marquês de Pombal, que modernizou o ensino e atraiu professores de renome. Entusiasmado com o novo clima intelectual, Silva Alvarenga celebrou em versos a renovação das letras e saudou tanto a juventude portuguesa quanto a brasileira. Sua ode chamou a atenção do próprio marquês de Pombal. Sob esse estímulo, compôs o poema herói-cômico "O Desertor das Letras", publicado por iniciativa do governo pombalino.

Durante as férias, frequentava os círculos literários de Lisboa, aproximando-se de Alvarenga Peixoto e especialmente de José Basílio da Gama, já então figura de destaque. Concluiu seus estudos entre 1775 e 1776, obtendo o grau de bacharel. 

Em 1777 voltou ao Brasil, fixando-se como advogado no Rio de Janeiro, onde se reintegrou aos círculos intelectuais da capital colonial por sua erudição, sociabilidade e talento musical, superando assim os preconceitos raciais de seu tempo. Nesse período, o Rio de Janeiro vivia sob o governo do marquês de Lavradio, vice-rei ilustrado que promoveu o desenvolvimento científico, econômico e cultural da colônia.

Nesse ambiente, Silva Alvarenga exerceu papel central, em especial na Sociedade Científica do Rio de Janeiro, influenciando a produção dramática local. Sofreu a perda da amada, episódio decisivo para sua lírica amorosa, que deu forma poética à figura idealizada de Glaura, síntese de realidade biográfica e elaboração estética.

Com o fim do governo de Lavradio, extinguiu-se a Sociedade Científica do Rio de Janeiro. O sucessor, Luís de Vasconcelos e Sousa, manteve o apoio às letras. Sob sua proteção, Silva Alvarenga foi nomeado professor régio de retórica e poética da capital. Em agosto de 1782, inaugurou solenemente o curso.

A Sociedade Científica se converteu em Sociedade Literária em 1780, tendo Silva Alvarenga como um de seus membros mais ativos e, provavelmente, secretário. A iniciativa, contudo, perdeu força quando Vasconcelos deixou o governo e foi substituído pelo conde de Rezende, período marcado pelo desânimo intelectual causado tanto pela repressão aos envolvidos na Inconfidência Mineira quanto pelo clima de tensão provocado pelos acontecimentos revolucionários na Europa.

Em meio a esse contexto, Silva Alvarenga levou vida discreta, mantendo um círculo restrito de amizades e chegando a cogitar o afastamento da vida urbana. Em junho de 1794, incentivado pelo próprio conde de Rezende, retomou as atividades da Sociedade Literária, instalando-a em sua residência na rua do Cano.

A regularidade e o conteúdo das reuniões da Sociedade logo despertaram suspeitas das autoridades, que passaram a acusá-la de funcionar como um núcleo de ideias políticas subversivas. Sob a lembrança recente da execução de Tiradentes, o conde de Rezende ordenou a dissolução da Sociedade. Publicamente, os membros acataram a ordem, e Silva Alvarenga tratou de desfazer a aparência institucional da entidade.

Silva Alvarenga e seus discípulos mantiveram discussões filosóficas e políticas, articulando reflexões sobre liberdade, igualdade e crítica ao despotismo colonial, inclusive no âmbito do ensino de retórica e poética. A repressão intensificou-se com a apreensão de livros e jornais estrangeiros, considerados perigosos à ordem colonial.

Como reação, formou-se uma sociedade secreta, cujos estatutos foram posteriormente registrados na devassa. Essa associação defendia princípios de igualdade entre os membros, exigia rigor moral e absoluto sigilo, tinha orientação democrática e dedicava-se ao estudo amplo da filosofia e à difusão controlada do conhecimento. 

Crescia a repressão política. Silva Alvarenga tornou-se alvo direto das autoridades coloniais após envolver-se em conflitos com setores conservadores, especialmente com frei Raimundo, frade franciscano que passou a acusar o poeta e seus amigos de jacobinismo, irreligiosidade e simpatia pela democracia.

Em dezembro de 1794, sob ordens do conde de Rezende, teve início uma série de prisões. Silva Alvarenga foi conduzido à fortaleza da Conceição, e teve bens, livros, manuscritos e objetos pessoais sequestrados. Entre 4 de julho e 14 de setembro de 1795, submeteu-se a nove interrogatórios, conduzidos pelo desembargador Antônio Diniz da Cruz e Silva, o mesmo juiz que atuara na repressão aos envolvidos na Inconfidência Mineira.

As acusações concentravam-se na existência de uma sociedade secreta, de caráter democrático, filosófico e igualitário, cujos estatutos serviram como prova central da acusação. Ao final, Silva Alvarenga permaneceu encarcerado por cerca de dois anos e meio.

Por determinação da rainha D. Maria I, que exigiu punição apenas se houvesse culpa comprovada, obteve a liberdade em 1797, recuperando livros e bens e retomando a vida doméstica, embora abatido física e moralmente pelo cárcere. Vivia recluso, dominado por profunda melancolia.

No início do século XIX, um de seus discípulos conseguiu publicar anonimamente a coletânea “Glaura”, contra a vontade do poeta, temendo a perda definitiva de seus versos. Ainda assim, perderam-se obras importantes, como sua tradução de Anacreonte e a célebre centúria de sonetos satíricos contra frei Raimundo.

Com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808, Silva Alvarenga experimentou breve renovação de esperanças. Passou a colaborar no periódico "O Patriota", dirigido por Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, embora de forma cada vez mais esporádica.

Silva Alvarenga faleceu na tarde de 1º de novembro de 1814, aos 65 anos, após longa doença.

Obra e poemas

A principal obra de Silva Alvarenga é 'Glaura - poemas eróticos', publicada no Rio de Janeiro em 1799. Trata-se de uma das raras manifestações editoriais da poesia árcade no Brasil colonial. Ele também publicou o poema herói-cômico 'Desertor das Letras', em Coimbra, 1774.

Poemas de 'Glaura - poemas eróticos' (Rio de Janeiro, 1799)

Para consultar

Edições digitais de suas obras estão disponíveis em:
As seguintes obras oferecem leituras aprofundadas sobre Silva Alvarenga e sua poesia:
Melo, S. C. (2018). Ambiguidade nas luzes: Silva Alvarenga e o poema herói-cômico no século XVIII. Revista Sapiência: sociedade, saberes e práticas educacionais (2238-3565), 7(3), 145-158.
Nepomuceno, L. A. (2001). Silva Alvarenga e o elogio da rainha. Todas as Letras-Revista de Língua e Literatura, 3(1).
Peixoto, S. A. (1996). Silva Alvarenga: as armadilhas do sentimento. Revista do Centro de Estudos Portugueses, 16(20), 49-63.
Topa, F., Cataneli, A., Martins, A., Camargo, Áureo, Vieira, G., Marques, H., … Nascimento, N. (2017). Da simples natureza guardemos sempre as leis: a epístola de Silva Alvarenga a Basílio da Gama. Miscelânea: Revista De Literatura E Vida Social, 15, 223–238.