O desgosto

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Poema de Silva Alvarenga



Se piedade, ó Glaura, sentes,,
Não aumentes meu desgosto:
O teu rosto não me ocultes,
Não insultes meu penar.

A meus ais responde a brenha,
A meus ais enternecidos;
Inda vem os meus gemidos
Nesta penha redobrar.
Só resiste a minhas dores
Esse peito ingrato e fero;
Infeliz! que em vão espero
Teus rigores abrandar.

Se piedade, ó Glaura, sentes,,
Não aumentes meu desgosto:
O teu rosto não me ocultes,
Não insultes meu penar.

Doire os céus a luz brilhante;
Tudo ofusque a sombra escura,
Hás de ver-me sem ventura
Triste amante a suspirar.
Ah cruel! e assim me deixas
Neste bárbaro tormento?
Minhas mágoas, meu lamento,
Minhas queixas solto ao ar?

Se piedade, ó Glaura, sentes,,
Não aumentes meu desgosto:
O teu rosto não me ocultes,
Não insultes meu penar.

Já se apartam névoas frias,
Ri-se o campo, ri-se a esfera:
Torna a doce primavera...
Oh que dias vão raiar!
Ai de mim! que não consigo
Nem prazeres, nem descanso:
Foge o bem e não alcanço,
Vai comigo o meu pesar.

Se piedade, ó Glaura, sentes,,
Não aumentes meu desgosto:
O teu rosto não me ocultes,
Não insultes meu penar.

Pensativo entre estas faias,
Aborreço o vale, os montes:
Não me alegram sombras, fontes,
Nem as praias, nem o mar.
O meu canto não respira
Na aspereza destas grutas;
Mas se tu me não escutas,
Fique a lira exposta ao ar.

Se piedade, ó Glaura, sentes,,
Não aumentes meu desgosto:
O teu rosto não me ocultes,
Não insultes meu penar.



Fonte: "Obras Poéticas", B. L. Irmãos Garnier, 1864.
Originalmente publicado em: "Glaura: poemas eróticos", Officina Nunesiana, 1799.

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