Carlos Drummond de Andrade é uma voz central da poesia do século XX: autor profícuo, publicou dezenas de livros de poesia, além de escrever periodicamente na imprensa artigos e crônicas.
Biografia
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, na cidade de Itabira do Mato Dentro, em Minas Gerais, nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de dona Julieta Augusta Drummond de Andrade. A mãe era prima do pai e tiveram 14 filhos, a maioria, oito, falecidos na infância. Drummond registraria a breve história desses irmãos e irmãs no poema Os Chamados.Família tradicional do interior de Minas Gerais, os Drummond de Itabira eram descendentes do capitão Antônio de Carvalho Drummond, originário da Ilha da Madeira, que no século XVIII assumiu o posto de guarda-mor das terras de São Miguel de Antônio Dias, na comarca do Rio das Velhas.
Poucos anos após o nascimento de Carlos, por volta de 1908, impulsionada por capital inglês, teve início a mineração industrial de ferro do Pico do Cauê, área com cerca de 1 bilhão de toneladas de minério. O menino Drummond podia observar o Pico do Cauê, um dos símbolos da provinciana e rural Itabira, da janela da casa de seus pais.
Ele acompanharia o processo gradual de desaparecimento da montanha - hoje, o Pico do Cauê não existe mais. Após desapropriação promovida por Getúlio Vargas na década de 1940, a empresa mineradora estrangeira tornou-se a Companhia Vale do Rio Doce.
Recuperado de saúde, os pais matricularam-no em 1918 no prestigioso Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Escola particular que recebia alunos principalmente do Sudeste, Carlos, privado das regalias de um filho de proprietário rural do interior mineiro, frente à rígida disciplina jesuíta, ganhou dos colegas o apelido de anarquista.
Em 1929, transferiu-se do Diário de Minas para o Minas Gerais, órgão oficial do estado. Publicou o primeiro livro de poesia em 1930, uma edição autoral com 500 exemplares e impressa na Imprensa Oficial, cujo pagamento se realizou mediante desconto na sua folha de vencimentos. Assumiu a função de auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior, quando eclodiu a revolução de 30, contribuindo para o gerenciamento de ações militares.
Itabira, dessa forma, foi o berço da maior empresa de mineração do Brasil e de um de seus poetas mais célebres, que, não por acaso, seria um crítico da atividade minerária. Um exemplo disso encontra-se nos versos de abertura do poema Lira Itabirana: "O Rio? É Doce./ A Vale? Amarga./ Ai, antes fosse/ Mais leve a carga."
A irmã Rosa, mais velha, cuidou da alfabetização inicial de Drummond, às escondidas dos pais, que julgavam aquele seu filho muito precoce e temiam que ele ficasse louco. A leitura o fascinava, e ele lia
um jornal da primeira à última palavra, mesmo sem compreender boa parte do conteúdo.
Sua formação escolar começou em 1910 no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito. Menino, Drummond gostava de brincar na rua com os amigos, até que lhe chamassem para casa, como descreve no poema Brincar na rua. Não adequava-se a um futuro ligado aos afazeres cotidianos da fazenda. Foi mordido por um cavalo manso, de outro caiu da sela.
Concluiu o curso primário, e enquanto aguardava o pai decidir para qual escola secundária enviaria o filho leitor, pediu para trabalhar como caixeiro numa venda de armarinho e outros gêneros, em que ocupava-se mas não ganhava salário. No fim do ano, o patrão presenteou-lhe um terno e calças compridas.
Em 1916, os pais mandaram-no para o internato do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, instituição em que estudavam os filhos da oligarquia mineira. Formaria amizades que influenciariam a trajetória de sua vida adulta, profissional e literária, com Afonso Arinos, Emílio Moura, Martins de Almeida e Gustavo Capanema. Durante as folgas do fim de semana, desbravava a paisagem urbana, em especial o cinema e, atendendo aos instintos do corpo, a região dos bordéis.
Suas aventuras libidinosas causaram um problema de saúde. Contraiu o mal gálico - a sífilis, doença comum em lupanares da época -, obrigando-o a interromper o internato e retornar à casa dos pais, em Itabira, para tratamento. De modo a não desperdiçar de todo o ano letivo, o pai matriculou-o nas aulas de francês - cuja língua e cultura eram moda no país - do itabirano mestre Emílio. Aprendeu um pouco da língua, sem dominar os verbos irregulares.
Recuperado de saúde, os pais matricularam-no em 1918 no prestigioso Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Escola particular que recebia alunos principalmente do Sudeste, Carlos, privado das regalias de um filho de proprietário rural do interior mineiro, frente à rígida disciplina jesuíta, ganhou dos colegas o apelido de anarquista.
A conquista de um espaço no Colégio Anchieta contou com a participação da rapadura. Carlos trouxe consigo, de Itabira, o doce, que o repartiu entre os colegas. Provaram, a princípio desconfiados, mas em seguida rendidos ao prazer da rapadura. O sucesso durou até o dia em que um menino de Botafogo mordeu um pedaço e quebrou o dente.
Apesar do destaque alcançado em diversas disciplinas, e de ser um dos melhores alunos do colégio, Carlos não logrou concluir os estudos secundários. Aprovado com distinção no segundo ano letivo, antes de se concluírem as aulas foi expulso da aula pelo professor Guedes, de português, em função de uma brincadeira qualquer.
Nada de extraordinário, pois no colégio de regime militar, alunos serem expulsos das aulas por 'falhas' de comportamento era algo comum. Todavia, na avaliação semanal, o professor Guedes concedeu-lhe, por comiseração, nota 4 em comportamento - um item de peso no exame dos internos. Inconformado, Drummond escreveu ao reitor em protesto, Padre Justino, solicitando uma nota justa e não concedida por comiseração.
O resultado foi uma escalada em sua humilhação. Padre Justino chamou-o para uma conversa, quando, docemente, comunicou-lhe a expulsão. Não informaria ao pai de Carlos que ele havia sido expulso, se o aluno escrevesse um pedido de desculpas ao professor Guedes. E durante a assembleia do dia seguinte, reunindo alunos e mestres, num evento público e ruidoso, Padre Justino expulsou o adolescente de 17 anos, declarando-o indigno de frequentar o colégio. O episódio fez Carlos perder a fé, perder tempo e a crença no julgamento justo.
O retorno a Itabira foi breve porque o pai vendeu o casarão na cidade de Itabira e partes das terras, transferindo-se, em 1920, com a família para Belo Horizonte, onde se estabeleceriam definitivamente numa casa do bairro Floresta. Jovem um tanto desarvorado na moderna capital mineira, Drummond tomaria o hábito de caminhar, em particular ao longo do eixo da Rua da Bahia, em que se concentravam os estabelecimentos ligados à cultura, à boêmia e à política. Ele carregaria consigo o hábito pelo resto da vida.
Dedicou-se, sustentado por uma mesada paterna, ao prazer da vadiagem. Ao lado dos amigos, como Pedro Nava, praticava atos juvenis de desordem, arruaças que incluíam barricadas em frente a cinemas em protesto ao aumento de ingressos, invasões de cemitérios, provocações ou vaias em discursos políticos, depredação de bondes e de placas de escritórios de advocacia ou consultórios médicos.
Junto a Nava, atiçou fogo à casa de uma namorada, que ambos ajudaram a apagar. Suspeito de ter sido autor da perigosa brincadeira, foi agredido pelo noivo de uma das moças da família. Mas seu exercício de anárquica rebeldia que ficaria marcado na memória da cidade seria outro: a escalada dos arcos do viaduto de Santa Tereza.
Nesse período, entre 1920 e 1922, Carlos frequentava a Livraria Alves, localizada na Rua da Bahia, e lia furiosamente novos autores europeus. Foi quando começou a escrever prosa e poesia, publicar textos e contribuir com a imprensa local. Iniciou a carreira jornalística nas páginas do Jornal de Minas em 1920, veículo pequeno e de breve existência. Passou em seguida a escrever para o Diário de Minas, jornal oposicionista de maior tradição.
Por pressão da família, inscreveu-se, em 1923, no curso universitário da Escola de Farmácia, que não exigia exames preparatórios, era curto e lhe propiciaria um diploma em curto prazo. No ano seguinte, incita os amigos a visitarem Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, de regresso de uma excursão às cidades históricas mineiras, no Grande Hotel de Belo Horizonte.
Ao longo da década de 1920, Drummond, Mário de Andrade e Manuel Bandeira formariam um círculo de amizade pelos correios, trocando cartas em que apresentavam textos, discutiam temas, ou falavam de aspectos cotidianos e íntimos da vida. Enquanto frequentava a Escola de Farmácia, Carlos ficou noivo de Dolores Dutra de Morais. Casam-se em 1925, ano em que, junto a amigos como Emílio Moura, publicou os três números do periódico modernista A Revista.
Em busca de um emprego formal, retorna a Itabira para gerir a fazenda. Não se adaptando à rotina, encontrou trabalho como professor de Ginásio. A partir daí, suas relações pessoais e de amizade influenciariam seu trajeto profissional e, com a estabilidade financeira assim adquirida, sua atividade literário. A convite do colega e poeta Alberto Campos, Carlos voltou a Belo Horizonte para atuar como redator do Diário de Minas e, logo depois, como redator-chefe.
Em 1927, o primeiro filho, Carlos Flávio, faleceu apenas meia hora após o nascimento, fato que se transformaria nos poemas O que viveu meia hora e Ser. No ano seguinte, em 1928, nasceu sua filha Maria Julieta. Nesse mesmo ano, saiu na Revista de Antropofagia o poema de Drummond No meio do caminho, provocando enorme controvérsia e projetando o nome do poeta em âmbito nacional. Por indicação de um amigo, ingressou na administração pública como auxiliar de redação da Revista do Ensino, da Secretaria de Estado do Interior.
Em 1929, transferiu-se do Diário de Minas para o Minas Gerais, órgão oficial do estado. Publicou o primeiro livro de poesia em 1930, uma edição autoral com 500 exemplares e impressa na Imprensa Oficial, cujo pagamento se realizou mediante desconto na sua folha de vencimentos. Assumiu a função de auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior, quando eclodiu a revolução de 30, contribuindo para o gerenciamento de ações militares.
Passou a oficial de gabinete quando seu amigo Gustavo Capanema assumiu o cargo de secretário. Encerrada a revolução, Drummond exerceu outros cargos na administração do estado, além de continuar no jornalismo, com passagens pelas redações de A Tribuna, O Estado de Minas e Diário da Tarde. Em 1934, publicou o segundo livro de poesia, de 200 exemplares. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, então capital federal, para trabalhar como chefe de gabinete do amigo Gustavo Capanema, novo ministro da Educação e Saúde Pública.
Seguiria uma carreira estável de funcionário público no Rio de Janeiro, sempre contribuindo para diversos periódicos e veículos da imprensa, publicar outros livros de poesia e realizar traduções a pedido de editoras. Em 1945, deixou a chefia do gabinete de Capanema e aceitou o convite de Luís Carlos Prestes para atuar como codiretor do jornal comunista Tribuna Popular, do qual se afastou meses depois por divergências com a orientação da publicação. Ingressou então na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), onde se tornaria chefe da Seção de História na Divisão de Estudos e Tombamento.
Em 1949, sua filha Maria Julieta casou-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry, mudando-se para Buenos Aires - cidade que Drummond passaria a visitar para acompanhar o nascimento dos netos. Em 1954, deu início à série de crônicas "Imagens" no Correio da Manhã, mantida até 1969, e realizou a série de palestras "Quase Memórias" na Rádio Ministério da Educação.
Em 1962, após 35 anos de serviço público, Drummond aposentou-se como chefe de seção da DPHAN. Em 1969, ingressou no Jornal do Brasil, onde escreveria por 15 anos. Ao completar 70 anos, em 1972, teve sua trajetória celebrada em cadernos especiais nos principais veículos de imprensa do país.
Homem reservado e avesso às honrarias oficiais, Drummond recusou por motivo de consciência o Prêmio Brasília de Literatura em 1975, assim como declinaria do Troféu Juca Pato em 1983. Contudo, foi reconhecido com o Prêmio de Poesia da APCA (1974), o Prêmio Nacional Walmap (1975), os prêmios Estácio de Sá e Morgado Mateus (1980) e o título de Doctor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1982), ano de seu 80º aniversário.
Em 1984, Drummond encerrou oficialmente sua carreira de cronista, contabilizando 64 anos dedicados ao jornalismo. A escola de samba Estação Primeira de Mangueira sagrou-se campeã do carnaval carioca
em 1987, tendo o poeta como tema. Carlos, que enfrentava sérios problemas de saúde - havia permanecido 14 dias internado por insuficiência cardíaca no ano anterior -, acompanha o falecimento da filho em decorrência de um câncer. Morreu apenas 12 dias depois, prestes a completar 85 anos.
Seguiria uma carreira estável de funcionário público no Rio de Janeiro, sempre contribuindo para diversos periódicos e veículos da imprensa, publicar outros livros de poesia e realizar traduções a pedido de editoras. Em 1945, deixou a chefia do gabinete de Capanema e aceitou o convite de Luís Carlos Prestes para atuar como codiretor do jornal comunista Tribuna Popular, do qual se afastou meses depois por divergências com a orientação da publicação. Ingressou então na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), onde se tornaria chefe da Seção de História na Divisão de Estudos e Tombamento.
Em 1949, sua filha Maria Julieta casou-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry, mudando-se para Buenos Aires - cidade que Drummond passaria a visitar para acompanhar o nascimento dos netos. Em 1954, deu início à série de crônicas "Imagens" no Correio da Manhã, mantida até 1969, e realizou a série de palestras "Quase Memórias" na Rádio Ministério da Educação.
Em 1962, após 35 anos de serviço público, Drummond aposentou-se como chefe de seção da DPHAN. Em 1969, ingressou no Jornal do Brasil, onde escreveria por 15 anos. Ao completar 70 anos, em 1972, teve sua trajetória celebrada em cadernos especiais nos principais veículos de imprensa do país.
Homem reservado e avesso às honrarias oficiais, Drummond recusou por motivo de consciência o Prêmio Brasília de Literatura em 1975, assim como declinaria do Troféu Juca Pato em 1983. Contudo, foi reconhecido com o Prêmio de Poesia da APCA (1974), o Prêmio Nacional Walmap (1975), os prêmios Estácio de Sá e Morgado Mateus (1980) e o título de Doctor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1982), ano de seu 80º aniversário.
Em 1984, Drummond encerrou oficialmente sua carreira de cronista, contabilizando 64 anos dedicados ao jornalismo. A escola de samba Estação Primeira de Mangueira sagrou-se campeã do carnaval carioca
em 1987, tendo o poeta como tema. Carlos, que enfrentava sérios problemas de saúde - havia permanecido 14 dias internado por insuficiência cardíaca no ano anterior -, acompanha o falecimento da filho em decorrência de um câncer. Morreu apenas 12 dias depois, prestes a completar 85 anos.
Obras
Do livro 'Alguma Poesia', 1930
Do livro 'Brejo das Almas', 1934
Do livro 'Sentimento do Mundo', 1940
Do livro 'Poesias', 1942
Do livro 'A Rosa do Povo', 1945
Mário de Andrade desce aos infernos | Onde há pouco falávamos | Indicações | No país dos Andrades | Versos à boca do vento | Idade madura | Rua da madrugada | Como um presente | Interpretação de Dezembro | Retrato de família | Consolo na praia | Desfile | Equívoco | Economia dos mares terrestres | Nova canção do exílio | Episódio | Campo, chinês e sono | Rola mundo | Uma hora e mais outra | Passagem da noite | O medo | Anoitecer | A flor e a náusea | Resíduo | Vida menor | Nosso tempo (trechos) | Os últimos dias
Do livro 'Poesia até agora', 1948
Do livro 'Claro Enigma', 1951
Carta | Permanência | Convívio | Estampas de Vila Rica/ Museu da Inconfidência | Estampas de Vila Rica/ Hotel Toffolo | Estampas de Vila Rica/ Carmo | Evocação Mariana | A um varão, que acaba de nascer | Fraga e sombra | Sonho de um sonho | Contemplação no banco | Ser | Memória | Um boi vê os homens | Sonetilho do falso Fernando Pessoa | Os animais do presépio | Perguntas em forma de cavalo-marinho | Confissão (Claro enigma) | Legado | A ingaia ciência | A máquina do mundo | Cantiga de enganar | Rapto | Entre o ser e as coisas | Amar
Do livro 'Viola de bolso', 1952
Do livro 'Fazendeiro do Ar', 1954
Do livro 'Poemas', 1959
Do livro 'Lição de Coisas', 1962
Do livro 'Boitempo & A Falta que Ama', 1968
Do livro 'As Impurezas do Branco', 1973
Para consultar
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