Canto mineral

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Poema de Carlos Drummond de Andrade



Minas Gerais
minerais
minas de Minas
demais,
de menos?
minas exploradas
no duplo, no múltiplo
sem-sentido,
minas esgotadas
a suor e ais,
minas de mil
e uma noite presas
do fisco, do fausto,
da farra; do fim.

Minas de três séculos
mal digeridos
ainda minando
mineralgias míticas.
O outro desfalece:
Minas na mira
do erário real.
O diamante esmaece:
Minas na surdina
da seresta exausta.
O ferro empalidece:
Minas na ruína
de simplórios donos
de roças mal lavradas.

Minas orgulhosa
de tanta riqueza,
endividada
de tanta grandeza
no baú delida.
Cada um de nós, rei
na sua fazenda,
cada pé de milho
erguia o pendão
de nossa realeza,
cada boi-de-coice
calcava o tesouro
da terra indefesa
negociada
com a maior fineza.

(Ai, que me arrependo
- me perdoa, Minas -
de ter vendido
na bacia das almas
meu lençol de hematita
ao louro da estranja
e de ter construído
filosoficamente
meu castelo urbano
sobre a jazida
de sonhos minérios.
Me arrependo e vendo.)

Minas, oi Minas,
tua estranha sina
delineada
ao bailar dos sinos,
ao balir dos hinos
de festins políticos,
Minas mineral
Minas musical
Minas pastorela
Minas Tiradentes
Minas liberal
Minas cidadela
Minas torturada
Minas surreal
Minas coronela
Minas tal e qual
a pedra-enigma
no labirinto da mina.

Do ferro líquido da forja
do Barão de Eschwege
resta a ficha histórica.
Do rude Cauê,
a TNT aplainado,
resta o postal
na gaveta saudosista,
enquanto milhares
milhafres
de vagões vorazes
levam para longe
a pedra azul guardada
para tua torre
para teu império
postergado sempre.

E as esmeraldas,
Minas, que matavam
de esperança e febre
e nunca se achavam
eram verde engano?
Minas sub-reptícia
tarde defendida
de áureas cobiças
pelo astuto jogo
do pensar oculto,
do dizer ambíguo,
do nevoento pairar
de flocos de sigilo
no manifesto anil
sobre serramares.

Minas, nos ares,
Minas que te quero
Minas que te perco
e torno a ganhar-te
com seres metal
diluído em genes,
com seres aço
de minha couraça,
Minas que me feres
com pontiagudas
lascas de minério
e laminados de ironia,
vês?
No coração do manganês
pousa uma escritura
de hipoteca e usura
e o banco solerte
praticando a arte
do cifrão mais forte.

Minas
teimoso lume aceso
mesmo sob cinza,
Minas Acesita
Minas Usiminas
Minas Ipatinga
Minas felina
a custo ensaiando
o salto da serra
bem alto,
o romper de algemas
mais férreas que o ferro,
no rumo certeiro
do Intendente Câmara,
Minas que te mito
desprezando os prazos
de imemoriais atrasos,
de leve batendo à porta
da era espacial,
Minas tório urânio
Minas esperança
Minas detetando
o sinal
sob a tibieza dos homens
e o parangolé da retórica,
Minas mineralmente
geral      Gerais
auriminas
turmaliniminas
diamantinimas
muito abaixo da mais uterina
mina recôndita
luzindo
o cristalino
abafado
espírito de Minas.



Fonte: "As Impurezas do Branco", José Olympio Editora, 1973.
Originalmente publicado em: "As Impurezas do Branco", 1973.


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