Composição

Imagem de Carlos Drummond de Andrade

Poema de Carlos Drummond de Andrade



E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
e a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu.

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura. 



Fonte: "Antologia Poética", Editora Record, 2001.
Originalmente publicado em: "Poesia até agora", Editora José Olympio, 1948.


Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.