Rua da madrugada

Imagem de Carlos Drummond de Andrade

Poema de Carlos Drummond de Andrade



A chuva pingando
desenterrou meu pai.
Nunca o imaginara
assim sepultado
ao peso dos bondes
em rua de asfalto,
palmeiras gigantes balançando na praia
e uma voz de sono
a alisar-me o cabelo
de onde escorrem músicas,
dinheiro perdido,
confissões exaustas,
fichas, copos, pérolas.

Sabê-lo exposto
a esse bafo úmido
que vem dos recifes
e bate na cara,
desejar amá-lo
sem qualquer disfarce,
cobri-lo de beijos, flores, passarinhos,
corrigir o tempo,
passar-lhe o calor
de um lento carinho
maduro e recluso,
confissões exaustas
e uma paz de lã.

Sentir-me tão pobre
de bens naturais,
querer transportá-lo
ao velho sofá
da antiga fazenda,
mas pingos de chuva
mas placas de lama sob luzes vermelhas
mas tudo que existe
madrugada e vento
entre um peito e outro,
brutos trapiches,
confissões exaustas
e ingratidão.

Que pode um homem
ao alvorecer
- gosto de derrota
na boca e no ar -
ou a qualquer momento
em qualquer país?
Tudo que falou, mentiu ou bebeu
e o mais que se oculta
nas pregas do sono,
pontas de cigarro,
a chuva nas luzes,
confissões exaustas,
náusea matinal.

Vagas montanhas,
ondas esverdeando,
jornais já brancos,
música indecisa
tentando criar
condições de espera,
dia pálido, canção balbuciada:
já nada me lembra
o asfalto perfeito.
Alçapões desertos,
o corpo se move,
confissões exaustas,
rudemente, caminho de casa.


Fonte: "A Rosa do Povo", Editora Recordo, 1984.
Originalmente publicado em: "A Rosa do Povo", 1945.

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