Jacinta Passos
Jacinta Passos foi uma poeta, jornalista e militante comunista brasileira, cuja trajetória combina ruptura social, engajamento político e intensa produção literária, marcada por tensões entre religiosidade, ideologia e sofrimento psíquico.
Biografia
Jacinta Veloso Passos nasceu na fazenda Campo Limpo, no município de Cruz das Almas, Recôncavo da Bahia, em 30 de novembro de 1914. Pertencia a uma família tradicional da região - seu bisavô português foi um dos fundadores do arraial que deu origem ao município.
Em 1924, aos 10 anos de idade, Jacinta mudou-se com a família para São Félix, em função das pretensões do pai de retomar sua carreira política. Iniciou os primeiros estudos sob uma formação fortemente católica, incluindo o aprendizado do catecismo e a participação nas atividades da Igreja. Dois anos mais tarde, após vender a fazenda ao irmão, seu pai construiu um sobrado em Salvador, para onde a família se transferiu.
Juntamente com suas três irmãs, Jacinta ingressou na Escola Normal da Bahia em 1927, instituição que oferecia formação para o magistério. Dedicava-se intensamente à religiosidade, sendo considerada a mais devota entre os irmãos, tornando-se Filha de Maria. Escrevia poemas, mas não gostava de compartilhá-los.
Estudiosa e inteligente, formou-se com láurea em 1932. Passou a exercer a profissão de professora, dando aulas particulares e também para mulheres pobres na Escola Paroquial de Nazaré. Foi contratada como professora de matemática da Escola Normal onde estudara e também lecionou catecismo para crianças. Frequentava o Mosteiro de São Bento e sua biblioteca, aproximando-se da doutrina social da Igreja Católica.
O interesse pela poesia a aproximou do círculo literário baiano. Na companhia do irmão, também poeta, ligou-se à Ala das Letras e das Artes (ALA), participando de discussões literárias e compartilhando seus versos. Em 1936, aos 22 anos, publicou dois poemas na revista O Malho, do Rio de Janeiro. No ano seguinte, uma coluna do jornal baiano A Tarde, ao analisar sua produção poética, trouxe reconhecimento a Jacinta como poeta.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, engajou-se ativamente na luta contra o fascismo e o nazismo. Participou de comícios, passeatas e manifestações, além de trabalhar como voluntária na Legião Brasileira de Assistência, em Salvador. Seu envolvimento a aproximou de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) - entre eles, o próprio irmão -, uma das principais forças do movimento antifascista e da oposição à ditadura de Getúlio Vargas.
Em 1942, publicou seu primeiro livro de poesia em conjunto com o irmão, obtendo boa recepção da crítica baiana. A convite de Jorge Amado, passou a escrever regularmente para o jornal O Imparcial sobre política nacional e internacional, o combate ao nazifascismo e a mobilização feminina, chegando inclusive a manter uma coluna voltada ao público feminino.
Jacinta conheceu James Amado, irmão mais novo de Jorge Amado, em 1943. No ano seguinte, mudou-se para São Paulo com o objetivo de realizar um curso de aperfeiçoamento para professoras. Em vez de se hospedar na casa de um primo, passou a viver com James, que estudava na Escola de Sociologia e Política, em uma pensão. Decidiram se casar pouco depois, no civil.
Integrau-se ao círculo literário e político paulistano. Participou do I Congresso Brasileiro de Escritores, além de comícios, passeatas e outros atos políticos em defesa da redemocratização do país. Em 1945, publicou seu segundo livro de poesia. No mesmo ano, marcado por eleições para a Presidência da República e para a Assembleia Nacional Constituinte, atuou como militante ativa do PCB.
Engravidou, mas perdeu o filho no oitavo mês de gestação. Após uma breve passagem por Porto Alegre, o casal retornou a Salvador, onde ambos concorreram a cargos de deputado estadual. Jacinta engravidou novamente e, devido a complicações, permaneceu internada por sete meses, até o nascimento da filha, em 1947.
Mudaram-se para uma fazenda da família Amado, no interior da Bahia, onde permaneceram até 1951, quando se transferiram para o Rio de Janeiro. Nesse ano, Jacinta publicou seu terceiro livro de poesia. Pouco depois, sofreu uma grave crise nervosa no apartamento onde morava, sendo diagnosticada com esquizofrenia paranoide, então considerada uma doença progressiva e incurável.
Durante os quatro meses de sua primeira internação, foi submetida a tratamentos com eletrochoques, injeções de insulina e barbitúricos. Posteriormente, foi transferida para uma clínica na Ilha do Governador, onde permaneceu internada, com visitas da família. Para melhor acompanhamento, seu irmão médico a levou para uma clínica em São Paulo, o que resultou na separação definitiva do marido e da filha.
Retornou a Salvador em 1955, sem trabalho e sem recursos financeiros, passando a viver de forma mais isolada na casa dos pais. Publicou seu quarto livro em 1958. Sofreu novas crises, gerando grande tensão familiar, o que levou seus parentes a interná-la novamente contra sua vontade.
Nos anos finais, viveu em Pernambuco e, posteriormente, em Aracaju, Sergipe. Foi presa após o golpe de 1964 e novamente internada em instituições psiquiátricas, onde permaneceu até falecer, em 1973, vítima de derrame cerebral.
Obras
Do livro 'Nossos Poemas', 1942Diálogo num país qualquer | Carnaval | Noturno em Palmira | O canto de amanhã | Ressonância | Canção simples | Limitação | Mensagem aos homens | Compreensão | Campo Limpo | Solidão | O mar | Incerteza | Alegria | Manhã de sol
Do livro 'Canção da partida', 1945
Chiquinha | Diálogo na sombra | Metamorfose | Louvação do dinheiro | Canção da alegria | Pânico no planeta Marte | Três canções de amor (trecho) | Canção da partida
Do livro 'A Coluna', 1957
Marcha final (de Serras e pântanos) | Estrada cruel (de Serras e pântanos) | Serra do Sincurá (de Serras e pântanos) | Potreadas | Fome | Seca | O leilão | O inimigo | A marcha
Do livro 'Jacinta Passos, coração militante', 2010
Para consulta
Edições digitais das obras de Jacinta Passos estão disponíveis em SciELO Livros.
Para aprofundar o estudo sobre a poeta:
Almeida, A. A. P. D., & Fabbrini, R. (2016). A ética da psicanálise e o diagnóstico psiquiátrico-político. Um estudo de caso a partir da biografia de “Jacinta Passos”. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 19, 751-765.
da Cruz Alves, I. (2017). O "não lugar" das mulheres na memória e na história do PCB. XXIX Simpósio de História Nacional.
da Silva, B. A. (2022). Jacinta Passos: poesia, política e devoção.
de Freitas, V. R., & da Cunha, R. (2021). “Eu não serei eu, eu serei nós”: a comunidade imaginada de Jacinta Passos. ITINERÁRIOS–Revista de Literatura, (52).
Oliveira, R. S. (2012). Jacinta Passos, loucura ou marginalização?. III Encontro Baiano de Estudos em Cultura.
Pampani, A. D. A. (2024). Voz e verso: a escrita de Jacinta Passos na década de 1940 no Brasil.
