Metamorfose

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Poema de Jacinta Passos



Fui moleque,
jornaleiro,
nunca tive opinião,
ajudante de pedreiro,
fui chofer de caminhão,
trabalhei na Plataforma,
operário de sabão,
já morei
oi!
já morei no Taboão.

Carneirinho! Carneirão!
Olha pro céu! Olha pro chão!

Céu é Barra, é Avenida,
outra vida!
nunca a gente foi lá não.

Nem eu sei como foi isso,
foi feitiço,
arte do Cão,
mas um dia fiquei rico
que nem o rei Salomão.

Chave do mundo,
tenho na mão.
Desceu o céu!
Subiu o chão!

Minha gente venha ver
coisa que nunca se viu,
um mulato virou branco,
subiu! subiu!
A formiga criou asas,
o pato passou a ganso,
lagarta virou besouro,
de repente virei tudo,
virei até um rei mouro,
virei sábio, virei gentleman,
meu cabelo virou louro,
virei genro, industrial,
tabu, ministro, escritor,
quase viro ditador.

Agora cheguei em cima,
agora vi que eu sou dois.

Quem sois?

Minhas senhoras:
Meus senhores:

O meu drama começou.

Serei moleque e rei mouro,
serei dentro e serei fora,
serei ontem e serei hoje,
serei noite e luz da aurora?
Quem sois?
Serei eu e serei tu,
serei Sancho e D. Quixote,
serei Deus e Belzebu?
Não posso viver assim!
Serei Pierrot e Arlequim,
serei anjo e homem carnal,
serei o ser e o não-ser,
serei o bem e o mal?

Serei foice e serei sigma?
Enigma!
Que serei eu afinal?
Ai de mim!
Serei o princípio e o fim.



Fonte: "Jacinta Passos, coração militante", Editora EDUFBA, 2010.
Originalmente publicado em: "Canção da Partida", Edições Gaveta, 1945.

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