Canção da partida

Imagem da poeta Jacinta Passos

Poema de Jacinta Passos



Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

Não me prenda
bom vaqueiro
bom vaqueiro
eh!
dá licença de passar,
levo a noite e levo o dia
que alegria!
levo tanto o que acabar.

Mandioca tem veneno,
dá farinha e dá beiju.

Campo Limpo, lobisomem,
menina de calundu,
medo de cobra e trovão,
escuridão!

- Traga logo o meu cavalo.
- Está pronto, meu patrão.

Benedito tem cem anos:
negro duro!
cem anos de escravidão.
Cadê Princesa Isabel
que a liberdade inventou?
- Vitalina!
manoca o fumo, menina,
você hoje vadiou.
É vem o velho Camilo,
barbas brancas,
ar de nobre.
Camilo, você é pobre
e nunca foi senador,
mas por que é igualzinho
ao retrato de vovô?
Não sei, não sei se adivinho,
se Venâncio adivinhou:
- são voltas que o mundo dá.

Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

- Minha madrinha,
nasci em berço de ouro -
(Morreu pedindo branquinha.)
Era grande, era valente,
gostava do bom quitute,
curava o povo doente,
rezava Mês de Maria
mas um dia
vovó Jacinta morreu.
Na casa grande vazia
uma sombra anda, vigia.

Dade na fonte,
Dade na lenha,
dez filhos deu ao mundo,
está plantando roça,
está na casa da farinha,
criou cinco filhos brancos
e depois morreu sozinha.
Campo Limpo.
Onde é que Dade está?

Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

Zé do Carmo,
é vem o trem!
Cruz das Almas.
Não me prenda
bom vaqueiro
bom vaqueiro
eh!
dá licença de passar.
S. Félix!
olhe o rio Paraguassu,
vou morar junto da ponte,
Cachoeira
Bananeira
quanta água desceu do monte!

- Hoje tem sabatina?
- Tem, sim senhor!

- Vamos, maninha, vamos
passear no jardim celeste.
- O que foi que vistes lá?
Giroflê, giroflá.
Professor Mário!
Zete!
Dulce!
Paulo!
Zinha!
vamos ver a estrelinha
piscando no céu noturno,
dar um nome a cada astro,
como vai, senhor Saturno?

A Terra se move
- quem viu? quem viu?
em torno dum eixo
que nunca existiu.
Vamos, maninha,
passear no mapa-múndi,
é bonito como um chão,
todo feito de mosaicos,
cada cor, uma nação.
Quanto azul!
Tem mais água do que terra,
tem mais peixe do que homem,
tem nação roxa, amarela,
- dê um pulo, pule o mar! -
verde, azul, cor de canela,
de pimenta-malagueta,
cor da cara do Capeta
ou de cor já desbotada
tão pisada!
nação velha, sem idade,
como se pode saber?
nasceu antes do relógio
que fez o tempo nascer.

Vamos, maninha,
o que foi que vistes lá?

Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

Me leve ligeiro,
Manuel Canoeiro,
este rio vai dar
nas águas do mar.

Rema
rema
remador,
caranguejo peixe é,
lutar contra a sua sorte
é remar contra a maré.
Pé de Anjo, ganhador,
vou conhecer a Bahia,
já vou tomar o vapor,
eu não sei como é o mar,
quero ver o Elevador.
Este rio vai dar
nas águas do mar.

Serei rica ou serei pobre?

Tomásia de Queiroz,
minha criada!
me diga o que somos nós.

O meu pai é deputado
democrata liberal
- viva a eleição!
terça-feira vou ao baile
no Palácio Aclamação.
- Andar na rua sem chapéu
ficará bem para nós?
- Não fica!
Minha irmã vai se casar
com um doutor.
Sou rica!

- Vamos vender Campo Limpo
para pagar nossa casa
na Ladeira do Hospital.
As meninas logo vão
entrar na Escola Normal,
é mais seguro,
professora é meio de vida,
ninguém sabe do futuro.
Minha mãe, minha mãezinha,
todo dia na cozinha,
faz doce para vender:
- Augusto Braço Cotó,
vá entregar no Triunfo
e cobre!
Não diga nada a ninguém,
meu bem.
Sou pobre!

Não sei se sou rica ou pobre,
vivo lá e vivo cá,
sou como a mãe de S. Pedro,
entre o céu e a terra está.

Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

Casa, escola,
profissão,
rua, igreja,
multidão,
vida, vida,
solidão!

Menina, minha menina,
carocinho de araçá,
cante
estude
reze
case
faça esporte e até discurso,
faça tudo o que quiser
menina!
não esqueça que é mulher.

Minha terra tem gaiola
onde canta o sabiá

Menina minha menina,
carocinho de araçá.

Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

Bernadete é preta,
é preta que nem tição.

Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

Regina, Minervina,
Estelita e Conceição.
- Pelo sinal da pobreza!
- Pelo sinal de mulher!
- Pelo sinal
da nossa cor!

Nós somos gente marcada
- ferro em brasa em boi zebu -
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

Nós somos gente marcada,
nós temos muitos irmãos.
Eu te conheço, José,
José que desde menino
trabalhas nas Sete Portas,
teu patrão: “Seu Catarino”.
Eu te conheço, Manuel,
tu és Manuel de Maria,
meu compadre, estivador.
Pelo sinal
da nossa cor!
Porque estás triste, Maria?
deixa Manuel xingar,
xingar também alivia:
é uma forma de chorar.

Nós somos gente marcada,
nós temos muitos irmãos.

Passa depressa Moisés,
o Mar Vermelho secou!
Para a banda de lá,
eu vou!

Passa
passa
passará
derradeiro ficará.

Bom vaqueiro
bom vaqueiro
eh!
dá licença de passar,
já não vou sozinha agora,
vou com Dade,
Benedito,
Pé de Anjo,
com José,
vou com Camilo,
e com Tomásia,
não vou só,
Bernadete, Minervina,
Augusto Braço Cotó.
Vou de avião
para S. Paulo,
vou até o Orobó,
Território do Alasca,
vou virar um esquimó,
me encontrar com Timochenko,
Ludmila Pavlichencko,
minha irmã, minha irmãzinha,
que irmãzinha tenho eu,
vou ver a estrela d’alva
que no céu se acendeu.

Passa mato,
passa rio,
passa fera, passa frio,
passa até Montes Cárpatos,
a viagem vai custar.

Quando a gente lá chegar,
Venâncio!
não precisas mais de pinga,
Manuel nunca mais xinga,
Lampião deixa o cangaço,
Sinhá Anastácia
não precisa mais rezar.
- Que bicho hoje deu?
que time ganhou?
- O gato comeu
O fogo queimou.
O país para onde vamos,
Estelita!
é uma terra tão bonita,
parece até invenção.
O país para onde vamos,
Vitalina!
fica aqui, fica na China,
fica nas bandas do sul,
fica lá no Polo Norte,
principia onde termina,
muito além daquele monte,
lá na linha do horizonte,
onde a terra encontra o céu.

Já não vou sozinha agora,
vamos, meu povo,
diga adeus, vamos embora.



Fonte: "Jacinta Passos, coração militante", Editora EDUFBA, 2010.
Originalmente publicado em: "Canção da Partida", Edições Gaveta, 1945.

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