O que é lirismo?
Entende-se por lirismo a qualidade estética caracterizada pelo efeito de musicalidade e pela expressão de emoções ou experiências subjetivas, em geral por meio de textos curtos e de uma voz em primeira pessoa. A poesia lírica diz respeito ao conjunto de poemas que se destacam pela presença desse lirismo.
Os termos lírica e lirismo possuem uma história longa, com origem na Grécia antiga, refundação no romantismo europeu e revisões críticas modernistas, até chegar ao século XXI. Nesse percurso, suas definições sofreram alterações significativas, servindo a propósitos diversos conforme o contexto cultural. Cada época readaptou a noção de lírica e de lirismo segundo seus fins estéticos e ideológicos.
Definições e etimologia
A palavra lírica deriva de lira, instrumento de cordas popular na Grécia antiga. O texto cantado com acompanhamento musical, entretanto, não era chamado de lírico pelos gregos, mas de canção (meliké). Tratava-se de uma prática performativa e pública, experimentada por meio da oralidade.
O texto cantado com a lira guardava mais semelhanças com letras de música do que com aquilo que hoje se convencionou chamar de poesia lírica. A canção abrangia diversas práticas de recitação musical, com funções e públicos distintos, sendo apresentada em competições, festas religiosas ou contextos cívicos.
Em sua obra "Poética", o filósofo grego Aristóteles sistematizou o conhecimento de sua época sobre a arte e a poesia. O elemento comum às artes seria o fato de constituírem imitações da realidade (mímesis). Elas se distinguiriam conforme o meio, os objetos representados - o conteúdo - e o modo de representar.
Para Aristóteles, a música caracterizava-se por utilizar como meio o ritmo e a harmonia. A dança, por sua vez, utilizava exclusivamente o ritmo, traduzido em movimentos corporais. Outra forma de arte realizava-se por meio da linguagem, em prosa ou verso, mas esta, segundo o filósofo, não possuía ainda um nome próprio.
Por costume, os gregos chamavam de poetas aqueles que escreviam em versos, mesmo autores de tratados de medicina ou sobre a natureza. Aristóteles apropria-se dessa expressão para, em sua obra, conceitualizar a poesia, que abrangeria a arte criada pelo meio da linguagem, podendo incorporar o ritmo e a harmonia.
A poesia tomaria como objeto - seu conteúdo - as as pessoas e suas ações. Dividia-se em dois principais modos, a narrativa e a representação teatral. A ausência de qualquer menção específica à poesia lírica ou ao lirismo indica que, no tempo de Aristóteles, essas noções ainda não haviam se consolidado.
O termo mais importante para se referir ao texto de uma recitação musical era canto. A ponto de outro importante filósofo grego, Platão, em passagens ocasionais de sua obra distinguir o canto como um dos tipos de poesia, junto da épica e da tragédia.
O adjetivo lírico, no sentido de “relativo à lira”, foi empregado por estudiosos de Alexandria para se referir ao canto de poetas gregos de uma período específico, ligados ao instrumento. Ainda assim, tanto canto quanto lírico eram empregados sem distinção rigorosa.
Da Grécia ao trovadores
Na Antiguidade, a noção de poesia lírica era restrita ao canto acompanhado pela lira. Mesmo quando em primeira pessoa e carregado de emoção, faltava-lhe a subjetividade moderna de um indivíduo psicológico isolado. Em vez de confissão privada, o eu poético constituía uma voz integrada a práticas coletivas, representando posições socialmente codificadas.
A poesia do canto caracterizava-se por uma estética do sentimento ritualizado, em que a emoção era coreografada segundo regras sociais e esquemas retóricos. Além disso, o efeito emocional transmitia-se sobretudo pela dimensão sonora: ritmo, melodia e imaginário coletivo.
Da Antiguidade, essa poesia do canto estendeu-se ao período medieval, sobretudo por meio da tradição trovadoresca, difundida na Europa - especialmente na Espanha, França e Itália - entre os séculos XII e XIII. O trovador criava cantos em linguagem acessível, destinados ao entretenimento das cortes aristocráticas, com temas centrados no amor cortês.
O texto poético trovadoresco ainda se orientava por uma sensibilidade regulada por expectativas sociais, em vez de buscar uma expressividade singular. A maioria dos cantos, contudo, possuía atribuição autoral, pois os trovadores valorizavam a originalidade e a reputação pública.
O surgimento do lirismo
Um século após os trovadores, a escrita passou a ocupar espaço crescente nas sociedades medievais como meio de transmissão de histórias e saberes, sobretudo nos círculos aristocráticos e eclesiásticos. A poesia vernacular - em língua comum, e não em latim - espalhou-se pela Europa.
Natural de Arezzo, na Toscana, Petrarca sintetizou em sua obra as mudanças em curso na atividade poética. Ele escrevia textos destinados à circulação material, consumidos por leitores, estabelecendo uma relação mais direta e intimista com o poema, já não mediada pela recitação coletiva.
Autor de obra vasta, Petrarca destacou-se por combinar inovação formal - especialmente o soneto - com temas do afeto, das paixões e das emoções. O consumo do texto poético migrou para o espaço privado da leitura. A melodia e o ritmo passaram a ser internalizados na organização métrica dos versos. Estabeleciam-se, assim, as bases da noção moderna de lirismo.
Convergiram para isso três trajetórias: a leitura silenciosa substituiu progressivamente a oralidade, o livro tornou-se a unidade central de transmissão poética e a ideia de individualismo se fortaleceu nas sociedades. A maturação desses elementos encontraria campo fértil no romantismo dos séculos XVIII e XIX.
O período assistiu ao culto romântico do gênio individual como força criadora. Os poetas exaltaram a poesia como expressão do sujeito, concentrando-se nos desejos, na memória e nas emoções, em versos marcados por ritmo e musicalidade.
Foi um poeta do romantismo alemão, Goethe, quem fixou o lirismo enquanto um dos gêneros da poesia. Propondo uma revisão à divisão de Aristóteles, Goethe afirmou que a poesia apresentava três formas naturais: a épica, o drama e a lírica. Consolidava-se a noção moderna de lírica e de lirismo e, com ela, um critério de distinção da poesia em relação à prosa e outras formas literárias.
O século XX traria consigo os movimentos modernistas, propondo rupturas com os entendimentos herdados da tradição literária. Poetas investiram contra a poesia subjetiva, mergulhando em experimentações ligadas à forma e ao conteúdo. Produziram-se poemas que extipavam o lirismo, como exemplificam os poetas concretos.
Limites da ideia de lirismo
A concepção moderna de lírica formou-se no interior do modo de ser europeu, estabelecendo padrões estéticos que passaram a definir o que seria poesia. Embora localizada e eurocêntrica, essa noção converteu-se em medida universal, e expressões que não se ajustavam a ela eram frequentemente deslegitimadas.
Ao se reconhecerem herdeiros da tradição clássica, os europeus reinterpretaram a poesia grega não segundo o entendimento dos próprios gregos, mas conforme sua própria noção de lirismo. Já as expressões poéticas de povos não europeus, ainda que combinassem verso, música e ritmo, eram classificadas como inferiores ou folclóricas.
Além disso, o lirismo consolidou-se a partir de moldes masculinos. Durante séculos, a criação literária foi privilégio quase exclusivo dos homens, enquanto a mulher figurava como objeto evocado por uma voz masculina. A ampliação da participação feminina, sobretudo a partir do século XIX e intensamente no século XX, renovou a poesia lírica com outras sensibilidades.
O sentido dos termos lírica e lirismo não é fixo. A história mostra que eles se modificam conforme o lugar e o contexto cultural. O lirismo tornou-se central em épocas recentes, ligadas à formação do mundo moderno, mas deve ser compreendido criticamente: o fazer poético depende sempre de onde, quando e por quem é produzido e mantido vivo.
