Canção de Cusset

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Poema de Souza-Andrade



Se fosses, moreninha, sempre bela,
Tão bela como és hoje nesta idade,
Eu fora experimentar se amor perdura,
        Te amando muito.

Eu sei que amor existe enquanto brilha
A flor da mocidade resplandente;
Porém que logo morre quando os anos
        A vão murchando.

O sonho que de noite nos embala
Em vagas estranhezas não sonhadas,
Apaga-se com o sol - rompendo as nuvens,
        Ele é qual é:

Não sabes, moreninha, que os amores
São astros deste céu do nosso tempo?
É noite que, passando, além da aurora
        Deixa a lembrança?

Não quero pois amar, sentir não quero
A dor que sempre dói, que sempre dura
Daquilo que passou tão docemente
        E tão depressa!

Eu tenho inda saudades dos brinquedos
Dos tempos festivais da minha infância,
Dos beijos que bebi da mãe querida
        E a benção de meu pai;

Eu tenho inda saudades da donzela
A quem dei meu amor, o amor primeiro!
E ela ao romper dos anos tão queimada
        Nessa paixão!

Os lares paternais, meu berço amado,
Com quem no bosque andava os companheiros,
Amigos que eu perdi -  basta para a vida
        Levar-me ao fim.



Fonte: "Harpas Selvagens", Tipografia Universal de Laemmert, 1857.
Originalmente publicado em: "Harpas Selvagens", Tipografia Universal de Laemmert, 1857.


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