Na rede - Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu, poeta do Romantismo brasileiro

Poema de Casimiro de Abreu



Nas horas ardentes do pino do dia
              Aos bosques corri;
E qual linda imagem dos castos amores,
Dormindo e sonhando cercada de flores
              Nos bosques a vi!

Dormia deitada na rede de penas
              - O céu por dossel,
De leve embalada no quieto balanço
Qual nauta cismando num lago bem manso
              Num leve batel!

Dormia e sonhava - no rosto serena
              Qual um serafim;
Os cílios pendidos nos olhos tão belos,
E a brisa brincando nos soltos cabelos
              De fino cetim!

Dormia e sonhava - formosa embebida
              No doce sonhar,
E doce e sereno num mágico anseio
Debaixo das roupas batia-lhe o seio
              No seu palpitar!

Dormia e sonhava - a boca entre-aberta,
              O lábio a sorrir;
No peito cruzados os braços dormentes,
Compridos e lisos quais brancas serpentes
              No colo a dormir!

Dormia e sonhava - no sonho de amores
              Chamava por mim,
E a voz suspirosa nos lábios morria
Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia
              De algum bandolim!

Dormia e sonhava - de manso cheguei-me
              Sem leve rumor;
Pendi-me tremendo e qual fraco vagido,
Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido
              Falei-lhe de amor!

Ao hálito ardente o peito palpita...
              Mas sem despertar;
E como nas ânsias dum sonho que é lindo,
A virgem na reda corando e sorrindo....
              Beijou-me - a sonhar!




Fonte: "Obras Completas", B L Garnier, 1887.
Originalmente publicado em: "Primaveras", 1858.
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