Cena íntima - Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu, poeta do Romantismo brasileiro

Poema de Casimiro de Abreu



Como estás hoje zangada
E como olhas despeitada
        Só pra mim!
- Ora diz-me: esses queixumes
Esses injustos ciúmes
        Não têm fim?

Que pequei eu bem conheço,
Mas castigo não mereço
        Por pecar;
Pois tu queres chamar crime
Render-me à chama sublime
        D'um olhar!

Por ventura te esqueceste
Quando de amor me perdeste
        Num sorrir?
Agora em cólera imensa
Já queres dar a sentença
        Sem me ouvir!

E depois, se eu te repito
Que nesse instante maldito
        - Sem querer -
Arrastado por magia
Mil torrentes de poesia
        Fui beber!

Eram uns olhos escuros
Muito belos, muito puros,
        Como os teus!
Uns olhos assim tão lindos
Mostrando gozos infindos,
        Só dos céus!

Quando os vi fulgindo tanto
Senti no peito um encanto
        Que não sei!
Juro falar-te a verdade...
Foi de certo - sem vontade
        Que eu pequei!

Mas hoje, minha querida,
Eu dera até esta vida
        Pra poupar
Essas lágrimas queixosas,
Que as tuas faces mimosas
        Vêm molhar!

Sabe ainda ser clemente
Perdoa um erro inocente,
        Minha flor!
Seja grande embora o crime
O perdão sempre é sublime,
        Meu amor!

Mas se queres com maldade
Castigar quem - sem vontade
        Só pecou;
Olha, linda, eu não me queixo,
A teus pés cair me deixo...
        Aqui 'stou!

Mas se me deste, formosa,
De amor na taça mimosa
        Doce mel;
Ai! deixa que peça agora
Esses extremos d'outrora
O infiel:

Prende-me... nesses teus braços
Em doces, longos abraços
        Com paixão;
Ordena com gesto altivo...
Que te beije este cativo
        Essa mão!

Mata-me sim... de ventura,
Com mil beijos de ternura
Sem ter dó,
Que eu prometo, anjo querido,
Não desprender um gemido,
Nem um só!




Fonte: "Obras Completas", B L Garnier, 1887.
Originalmente publicado em: "Primaveras", 1858.
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