Uma queixa - Adélia Fonseca

Adélia Fonseca, poeta da transição do Romantismo

Poema de Adélia Fonseca



Meu Deus! por que derramaste
Dor tamanha em minha vida?
Por que afagar me deixaste
Uma esperança querida,
Que havia de ser-me arrancada,
Que tinha de ver perdida?

O porvir, que, lisonjeira,
Me prometia risonho,
Por que tu me não consentes
Gozar ao menos num sonho?
Por que o envolves em trevas,
Por que o fazes tão medonho?!

Ah! Senhor! dá-me de novo
Esses anos tão gentis,
Esses dias tão viçosos
De meus brincos infantis,
Em que eu tinha uma esperança
Que me tornava feliz;

Que, de flores esmaltado,
Um caminho me apontava,
O qual percorrer comigo
Fagueira me assegurava,
E conduzir-me à ventura
Que dele, no fim, raiava!

Então eu supunha lenta
Do tempo a fugaz carreira,
Que eu bem quisera tão rápida
Qual fantasia ligeira;
Mas que tanto me afastava
Dessa ventura fagueira.

Como, anelante, aguardava
O termo dessa tardança,
Animada de contínuo
Por enganosa esperança,
Em que minh’alma depunha,
Cega, inteira confiança!

É que, então, mal suspeitava
Que saudades sentiria
Desse tempo de folguedos,
Que tão lento parecia;
Tempo que a meiga inocência
De prazeres me tecia.

Hoje recordo, saudosa,
Esses anos tão gentis,
Esses dias tão viçosos
De meus brincos infantis,
Em que eu tinha uma esperança
Que me tornava feliz.

Ai! da ventura o caminho,
Que me sorria tão perto,
Vi sem flores, sem aromas,
E só de espinhos coberto!...
Abandonou-me a esperança
Que p’ra mim o tinha aberto!

Esta ideia do passado
A dor me torna mais forte;
Angustiada pranteio
Os tratos da dura sorte;
Mas, para findar meus males,
Ao Senhor não peço a morte.

Não peço; que não a quero:
A morte é - tudo olvidar;
Gelo que o peito entorpece,
Que o priva de palpitar;
É termo de sofrimentos,
Mas também é não amar.

Não, não peço; que prefiro
Tudo no mundo sofrer
A origem de meus males
No peito apagada ter;
Quero, embora me atormente,
Este penado viver.

Sorte! Sorte! se desejas
Ferir-me com mais rigor,
Contra mim teus golpes vibra,
Multiplica a minha dor;
Priva-me embora de tudo,
Deixa-me só meu amor!




Fonte: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
Originalmente publicado em: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
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