Que chuva! - Adélia Fonseca

Adélia Fonseca, poeta da transição do Romantismo

Poema de Adélia Fonseca



Que chuva, querido amigo,
Tão importuna e tão má!
Ah! quanto nos contraria,
Não te deixando vir cá!

Cada noite, ao recolher-me,
Sinto fagueira esperança
De que a manhã do outro dia
Seja manhã de bonança.

Mas qual! A manhã seguinte,
Para adrede atormentar-me,
Toda chuva, todo vento,
Vem do sono despertar-me!

Imagina como fico,
Quando acordo ao som pesado
Das grossas pancadas d’água,
Caindo sobre o telhado!

E acaso supões que este
Das gotas dela me abriga?
Pensas que um sólido forro
Me defende da inimiga?

Estás em completo erro;
Que a chuva invadindo tudo,
Nem as telhas, nem o forro,
Podem servir-me de escudo.

Nunca vi, querido amigo,
Dias assim tão iguais,
Tão irmãos, tão parecidos,
Para desesperarem mais!

Sabes o que será isto?…
Dilúvio teremos novo?…
Punir - Deus pretende acaso
Os pecados do seu povo?…

Como prevenir desgraças
Nenhum mal pôde fazer,
Vê se arranjas um barquinho
Para o que puder suceder.




Fonte: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
Originalmente publicado em: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
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