À Angelina: no seu álbum - Adélia Fonseca

Adélia Fonseca, poeta da transição do Romantismo

Poema de Adélia Fonseca



Não foi, querida Angelina,
A formosura divina,
Tão mimosa e peregrina,
Que em tua face se ostenta,
Que fez nascer no meu peito
O sentimento perfeito,
Pelo Senhor tão aceito,
Que cada vez mais se aumenta.

Não é por seres donosa,
Qual purpúrea e linda rosa,
Que abre fragrante e viçosa
D’aurora ao desabrochar,
Que meu coração te jura
Perenne e intensa ternura,
Tão meiga sempre e tão pura
Como o teu lânguido olhar.

Foi, sim, tua alma sublime,
Que abomina o feio crime,
Que a miséria não oprime
Com desdenhoso rigor;
Foi ela, morada pia,
Onde a virtude irradia,
Que, com tanta idolatria,
Granjeou meu terno amor.

Mas, meu anjo idolatrado,
Neste amor tão elevado,
Talvez me tenha enganado
Por não conhecer de feito,
Se amável e primorosa
És por seres virtuosa,
Ou se a virtude é formosa
Por existir no teu peito.




Fonte: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
Originalmente publicado em: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
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