Tempos duros - Murilo Mendes
Poema de Murilo Mendes
A aurora desce a viseira:
O monumento ao deserdado desconhecido
Acorda coberto de sangue.
O mar furioso devolve à praia
Alianças de casamento dos torpedeados
E a fotografia de um assassino,
Aos cinco anos - inocente - num velocípede.
Alguém parte o pão dos pássaros.
O ar espesso entre os sinos
Empurra o espanto das árvores.
Longas filas de homens e crianças
Caminham pelas mornas avenidas
Em busca da ração de sal, azeite e ódio.
E a morte vem recolher
A parte de lucidez
Que durante tanto tempo
Esconderá sob os véus.
Fonte: "Poesia completa e prosa", Nova Aguilar, 1994.
Originalmente publicado em: "Poesia liberdade", Editora Globo, 1947.
