Gaspar Hauser - Murilo Mendes
Poema de Murilo Mendes
Ninguém mais pode escolher
A vida que lhe apetece.
Ninguém mais pode ser só:
As almas são reveladas
À luz de mil holofotes.
Em torno de mim se agita
Uma conspiração de olhares.
Vou tomar a carruagem,
Comunicam ao mundo inteiro.
Cheiro uma rosa - explodiu.
Só tive consolo e paz
No ventre da minha mãe.
A quinta-coluna que existe
Desde o princípio do tempo
Não me deixa respirar.
Sou sempre triste, no escuro.
Adeus universo padrasto,
Que rejeitas o inocente,
O órfão, o pobre, o nu.
Não acho irmandade em ninguém:
Morrendo, sou livre enfim.
Fonte: "Poesia completa e prosa", Nova Aguilar, 1994.
Originalmente publicado em: "Poesia liberdade", Editora Globo, 1947.
