Recolhimento

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Poema de Henriqueta Lisboa



Das frases todas que me trazes
pela palavra ou por escrito,
nenhuma guardo como as frases
que no silêncio me tens dito.

Quando me falas de um amor
sem declarar que amor é este,
o teu olhar muda de cor
e sei de tudo o que escondeste.

Já não desejo ver de perto
o sol que aclara a tua estância:
porque o meu sonho é um céu aberto
e o azul se faz pela distância...

Se quando vens, também pelo ar
perfumes bons vêm para mim,
que é que me vale perguntar
se há muitas flores no jardim?

Não é no instante que me falas
que mais te expandes e revelas:
quando me fitas e te calas
as tuas frases são mais belas.

Ai! Se eu pudesse começar
o amor de novo, que prazer
em pressentir que ias falar
e não achavas que dizer...

Brilhem as frases como estrelas,
reviva o esmero com que as lavras,
sempre o silêncio há de vencê-las
que o amor melhor não tem palavras...



Fonte: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.
Originalmente publicado em: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.

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