A maldição do cativo (trecho)

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Poema de Souza-Andrade


Sou cativo, na cor trago a noite
Desta vida de escravo tão má!
Mãos do dia que algemas nos tecem
Sanguinosas, no inferno são lá!

No silêncio de umbroso passado
Um gemido recorda sua dor:
E o fracasso dos sóis que inda vem
Serão sempre gemidos de horror.

Inda mesmo que mude-se a sorte,
Inda mesmo que mude a nação,
Terra onde gememos em ferros
Junquem flores servis - maldição!

*

Não dormido nos braços da esposa
Que por terras estranhas vendida,
Nunca mais eu verei; eu que a via
Entre os dentes de uma onça incendida...

Vi seu colo arquejante cruzado,
Magoada sua face de amor...
Muito embora, mas nunca dobrada
De mulher que era minha ao senhor!

Entrançada com peias na escada,
Compassados açoites sibilam
E, banhados da carne que trazem,
Vão na areia, e de novo cintilam:

E a cadência do golpe e dos gritos
Mais o horrível da cena redobra:
Ruge a fera de um lado; a inocente
Oh, de dores se morde, se encobra!

Vi seu corpo de negras correntes
Enleado, que o roto vestido
Bem mostrava-lhe, e os ferros e o corpo...
Muito embora, mas nunca vendido!

Muda e lenta passou, fatigada
De um trabalho de insano sofrer:
E os seus olhos e os meus se encontraram
E entre pranto vi pranto correr.



Fonte: "Harpas Selvagens", Tipografia Universal de Laemmert, 1857.
Originalmente publicado em: "Harpas Selvagens", Tipografia Universal de Laemmert, 1857.


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