Lira IV (parte III)

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Poema de Thomaz Antônio Gonzaga



Que vezes julga que morre
Um naufragante no mar;
E então a sorte o socorre,
Levando-o à salvação!
Só eu na escura prisão,
Aonde morrendo vivo,
Não encontro lenitivo
Na minha dura aflição.

Lutando com a pobreza,
Vive o mortal indigente;
Até que a provida riqueza
O tira da precisão.
Só eu na escura prisão,
Aonde morrendo vivo,
Não encontro lenitivo
Na minha dura aflição.

Combatendo o inimigo,
Encontra o soldado a sorte
Que o livra de todo o p'rigo
Na mais arriscada ação.
Só eu na escura prisão,
Aonde morrendo vivo,
Não encontro lenitivo
Na minha dura aflição.

Ao som do pesado ferro
Chora o triste degradado;
Até que o livra do desterro
Uma poderosa mão.
Só eu na escura prisão,
Aonde morrendo vivo,
Não encontro lenitivo
Na minha dura aflição.

No cárcere ou no degredo,
Na doença ou na pobreza,
Ou lá mais tarde ou mais cedo
Todos tem consolação.
Também eu nesta prisão,
Aonde morrendo vivo,
É Marília o lenitivo
Na minha dura afliçâo.



Fonte: "Marília de Dirceu", Irmãos Garnier Editores, 1862.
Originalmente publicado em: "Marília de Dirceu", 1792.

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