Fala-te?

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Poema de Adélia Fonseca


O que te diz, doce amiga,
O que te diz essa estrela
Que em tuas longas vigílias
Sempre te ri, meiga e bela?

Essa estrela que, mimosa,
No firmamento fulgura;
Em que fitas meigos olhos,
Repassados de ternura?

Que através de claro vidro
Nas insonias te aparece,
Qual companheira extremosa
Que de ti jamais se esquece?

Vem as lembranças queridas
Do passado te avivar?
Ou as venturas que sonhas
Te promete realizar?

Se assim é, porque tão triste
A contemplas, suspirando,
E de Ophir líquidas pérolas
Estão teus olhos distilando?

Acaso não acreditas
No que essa estrela te diz?!
Tão bela, tão virtuosa,
Receias ser infeliz?

Ah! receias que te engane
A companheira mimosa
Que em tuas longas vigílias
Sempre te ri carinhosa?!

Que com dolosos protestos
Ela te queira iludir?
Que, fraudulenta, procure
De quimeras te nutrir?!

Desterra esses vãos temores;
Vê como te olha enlevada;
Confia na mensageira
A ti por Deus enviada.

E porque hás de em tu'alma
Aninhar cruel suspeita?
Reflectida nessa estrela
Não sabes quanto és perfeita?

Havia o Senhor criar-te
Adrede, gentil e pura
Para que fosse a desgraça
Partilha da formosura?

Não o creias, não o temas;
Deus, que te fez tão formosa,
Quer, Angelina, que sejas
Quanto bela, venturosa,

Deixa chorar seu destino
Quem não tem como tu tens,
Uma estrela que, luzindo,
Lhe vaticine mil bens;

Quem o seu astro querido
No céu não pode avistar
Senão coberto de nuvens
Que o privam de fulgurar;

Quem do passado só guarda
Recordação que o lacera;
Quem aborrece o presente;
Quem do porvir nada espera.

Tu porém, anjo, acredita
No que essa estrela te diz;
Tão bela, tão virtuosa,
Não temas ser infeliz.



Fonte: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
Originalmente publicado em: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.

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