Lira XXV (parte II)

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Poema de Thomaz Antônio Gonzaga



Por morto, Marília,
Aqui me reputo:
Mil vezes escuto
O som do arrastado
E duro grilhão;
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração!

A chave lá soa
Na porta segura:
Lá abre-se a escura,
Infame masmorra
Da minha prisão.
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração!

Já o Torres se assenta;
Carrega-me o rosto;
Do crime suposto
Com mil artifícios
Indaga a razão;
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

Eu vejo, Marília,
A mil inocentes,
Nas cruzes pendentes
Por falsos delitos,
Que os homens lhes dão;
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

Se penso que posso
Perder o gozar-te,
E a glória de dar-te
Abraços honestos,
E beijos na mão;
Marília, já treme,
Já treme de susto
O meu coração.

Repara, Marília,
O quanto é mais forte
Ainda que a morte,
N'um peito esforçado,
De amor a paixão;
Marília, já treme,
Já treme de susto
O meu coração.



Fonte: "Marília de Dirceu", Irmãos Garnier Editores, 1862.
Originalmente publicado em: "Marília de Dirceu", 1792.

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