Lira V (parte II)

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Poema de Thomaz Antônio Gonzaga



Já, já me vai, Marília, branquejando
Louro cabelo que circula a testa;
Este mesmo que alveja, vai caindo,
       E pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas cores
E vão-se sobre os ossos enrugando;
Vai fugindo a viveza dos meus olhos,
      Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergam;
As forças dos meus membros já se gastam;
Vou a dar pela casa uns curtos passos,
      Pesam-me os pés e arrastam.

Se algum dia me vires desta sorte,
Vê que assim me não pôs a mão dos anos:
Os trabalhos, Marília, os sentimentos
      Fazem os mesmos danos.

Mal te vir, me dará em poucos dias
A minha mocidade o doce gosto;
Verás brunir-se a pele, o corpo encher-se,
      Voltar a cor ao rosto.

No calmoso verão as plantas secam;
Na primavera, que aos mortais encanta,
Apenas cai do céu o fresco orvalho,
      Verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece;
Mas logo que a doença fez seu termo,
Torna, Marília, a ser quem era dantes
      O definhado enfermo.

Supõe-me qual doente ou qual a planta
No meio da desgraça que me altera:
Eu também te suponho qual saúde
      Ou qual a primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos
Aos mesmos astros luz e vida às flores,
Que efeitos não farão em quem por eles
      Sempre morreu de amores?



Fonte: "Marília de Dirceu", Irmãos Garnier Editores, 1862.
Originalmente publicado em: "Marília de Dirceu", 1792.

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