Lira IV (parte II)

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Poema de Thomaz Antônio Gonzaga



Sucede, Marília bela,
À medonha noite o dia;
A estação chuvosa e fria
À quente, seca estação;
Muda-se a sorte dos tempos,
Só a minha sorte não?

Os troncos, nas primaveras,
Brotam em flores viçosos;
Nos invernos escabrosos
Largam as folhas no chão;
Muda-se a sorte dos troncos,
Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marília, cortam
Armadas redes os passos;
Rompem depois os seus laços,
Fogem da dura prisão;
Muda-se a sorte dos brutos,
Só a minha sorte não?

Nem um dos homens conserva
Alegre sempre o seu rosto;
Depois das penas vem gosto,
Depois do gosto aflição;
Muda-se a sorte dos homens,
Só a minha sorte não?

Aos altos deuses moveram
Soberbos gigantes guerra;
No mais tempo o céu e a terra
Lhes tributa adoração;
Muda-se a sorte dos deuses,
Só a minha sorte não?

Há de, Marília, mudar-se
Do destino a inclemência;
Tenho por mim a inocência,
Tenho por mim a razão;
Muda-se a sorte de tudo,
Só a minha sorte não?

O tempo, ó bela, que gasta
Os troncos, pedras e o cobre,
O véu rompe, com que encobre
À verdade a vil traição.
Muda-se a sorte de tudo,
Só a minha sorte não?

Qual eu sou, verá o mundo;
Mais me dará do que eu tinha;
Tornarei a ver-te minha,
Que feliz consolação!
Não há de tudo mudar-se,
Só a minha sorte não! 



Fonte: "Marília de Dirceu", Irmãos Garnier Editores, 1862.
Originalmente publicado em: "Marília de Dirceu", 1792.

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