Lira XXXIII

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Poema de Thomaz Antônio Gonzaga



Minha Marília,
Se tens beleza,
Da Natureza
É um favor;
Mas se aos vindouros
Teu nome passa,
É só por graça
Do deus de amor,
Que, terno, inflama
A mente, o peito
Do teu pastor.

Em vão se viram
Pérolas mimosas,
Jasmins e rosas
No rosto teu.
Em vão terias
Essas estrelas
E as tranças belas
Que o céu te deu;
Se em doce verso
Não as cantasse
O bom Dirceu.

O voraz tempo
Ligeiro corre;
Com ele morre
A perfeição.
Essa, que o Egito,
Sábia, modera,
De Marco impera
No coração;
Mas já Otávio
Não sente a força
Do seu grilhão.

Ah vem, ó bela!
E o teu querido,
Ao deus Cupido
Louvores dar;
Pois faz que todos
Com igual sorte
Do tempo e morte
Possam zombar:
Tu por formosa,
E ele, Marília,
Por te cantar.

Mas ai, Marília,
Que de um amante,
Por mais que cante,
Glória não vem!
Amor se pinta
Menino e cego;
No doce emprego
Do caro bem
Não vê defeitos,
E aumenta quantas
Belezas tem.

Nenhum dos vates,
Em teu conceito,
Nutriu no peito
Néscia paixão?
Todas aquelas
Que vês cantadas
Foram dotadas
De perfeição?
Foram queridas;
Porém formosas
Talvez que não.

Porém que importa
Não valha nada
Seres cantada
Do teu Dirceu?
Tu tens, Marília,
Cantor celeste;
O meu Glauceste
A voz ergueu:
Irá teu nome
Aos fins da terra,
E ao mesmo céu.

Quando nas asas
Do leve vento
Ao firmamento
Teu nome for,
Mostrando Jove
Graça extremosa,
Mudando a esposa
De inveja a cor;
De todos há de,
Voltando o rosto,
Sorrir-se Amor.

Ah não se manche
Teu brando peito
Do vil defeito
Da ingratidão!
Os versos beija,
Gentil pastora,
A pena adora,
Respeita a mão,
A mão discreta
Que te segura
A duração.



Fonte: "Marília de Dirceu", Irmãos Garnier Editores, 1862.
Originalmente publicado em: "Marília de Dirceu", 1792.

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