O ribeirinho

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Poema de Francisca Júlia



O arroio fresco, em remanso,
de curva em curva, em marulhos,
num leito de pedregulhos,
escorregava de manso

em quedas lentas e bolhas
sob a arqueada galeria
da folhagem, que o cobria
com um teto verde de folhas.

E bocejava de sono
entre a douda garridice
dos roseirais da planície
num descansado abandono.

Vale abaixo, sem esforço,
folhas levava e raízes,
como embarcações felizes
que lhe singravam o dorso.

À tarde, em voo ligeiro,
vinham, as asas ruflando,
os passarinhos em bando
beber d’água do ribeiro.

Assim vivia o riacho,
dando de beber às aves,
descendo em giros suaves
campos e vales abaixo.

Mas chorava a todo instante,
tinha desgostos e mágoas
por não possuir tantas águas
como um afluente gigante.

Queria ser como os rios
de grossas águas redondas,
que podem erguer nas ondas
embarcações e navios;

ser um rio soberano
que terras alaga, invade,
e em noites de tempestade
tem vagalhões de oceano.

E penetrado de dor,
soltando queixas e mágoas,
vai levando suas águas
pelas campinas em flor.



Fonte: "Poesia reunida de Francisca Júlia", escamandro, 2015.
Originalmente publicado em: "Esfinges", Typographia do Diario Official, 1899.

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