Mudez

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Poema de Francisca Júlia



Já rumores não há, não há; calou-se
tudo. Um silêncio deleitoso e morno
             vai-se espalhando em torno
às folhagens tranquilas do pomar.

Torna-se o vento cada vez mais doce...
silêncio... ouve-se apenas um gemido
de um pequenino pássaro perdido
que ainda espaneja as suas asas no ar.

Ouve-me, amiga, este é o Silêncio, o grande
Silêncio, o rei das trevas e da calma,
             em que a nossa triste alma,
penetrada de mágoas e de dor,
             se dilata, se expande,
e seus segredos íntimos mergulha...
prolonga-se a mudez: nenhuma bulha;
já se não ouve o mínimo rumor.

Esta é a mudez, esta é a mudez que fala
(não aos ouvidos, não, porque os ouvidos
não conseguem ouvir esses gemidos
que ela derrama, à noite, sobre nós)
             à alma de quem se embala
numa saudade mística e tranquila...
nossa alma apenas é que pode ouvi-la
e que consegue perceber-lhe a voz.

Escuta a queixa tácita e celeste
que este silêncio fala a ti, tão triste...
e hás de lembrar o dia em que tu viste
perto de ti pela primeira vez,
             alguém a quem disseste
uma frase de amor, de amor... Ó louca!
e que, no entanto, só mostrou na boca
a mais brutal e irônica mudez!



Fonte: "Poesia reunida de Francisca Júlia", escamandro, 2015.
Originalmente publicado em: "Mármores", Horacio Belfor Sabino Editor, 1895.

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