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Poema de Jorge de Lima



Naquela tarde
o rosto infante,
sonho acordado,
bastava apenas
respiração
que do seu hálito
o ar se fazia,
com a estrela Vésper
antes da hora
da Ave-Maria:
ar coagulado
formando a igreja,
ar rarefeito,
a serra ao longe,
ar enterrado,
velho sobrado
onde nasceu.
No céu translúcido
gorro voando,
gavião morta,
mundo de infância,
flauta distante
e um som perdido
como um sonâmbulo
cortando a tarde
de leste a oeste.
Menino bobo
entra pra casa
antes que a asma
retire o sopro
do teu pulmão.
Teus companheiros
correm brincando;
tu sufocado
dosando o ar,
criando as coisas
com o ar da tarde
dos companheiros,
teu pensamento
correndo adiante
das andorinhas.
Há um som perdido
como um sonâmbulo
cortando a tarde
de leste a oeste.
Menino doente
entra pra casa
antes que a asma
roube o teu sopro,
teu pensamento
correndo adiante
das andorinhas
pela amplidão.



Fonte: "Obra Poética", Editora Getulio Costa, 1949.
Originalmente publicado em: "Obra Poética", Editora Getulio Costa, 1949.

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