Crepúsculo

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Poema de Francisca Júlia



Todas as cousas têm o aspecto vago e mudo
como se as envolvesse uma bruma de incenso;
no alto, uma nuvem, só, num nastro largo e extenso,
precinta do céu calmo a caris de veludo.

Tudo: o campo, a montanha, o alto rochedo agudo
se esfuma numa suave água-tinta… e, suspenso,
espalhando-se no ar, como um nevoeiro denso,
um tom neutro de cinza empoeirando tudo.

Nest’hora, muita vez, sinto um mole cansaço,
como que o ar me falta e a fôrça se me esgota… 
som de Ângelus, moroso, a rolar pelo espaço… 

neste letargo que, pouco a pouco, me invade,
avulta e cresce dentro em mim essa remota
sombra da minha Dor e da minha Saudade. 



Fonte: "Poesia reunida de Francisca Júlia", escamandro, 2015.
Originalmente publicado em: "Esfinges", Bentley Junior Editor, 1903.


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