Onde está o mar?

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Poema de Jorge de Lima



Suores salgados e amargos de mergulhadores escravos
se diluíram no mar.
Suores salgados e amargos de remadores de galeras
desceram para o mar.
Sangues salgados e amargos de grandes batalhas navais
desceram para o mar.
Lágrimas de sangue dos que ficaram abandonados nos cais
correram para o mar.
Sangue derramado nas guerras que a terra embebeu
correu para o mar.
O mar é cada vez mais amargo.
Onde está o mar inocente - propriedade do poeta?
Primeiro morreram os imensos animais e as grandes plantas marinhas do começo.
E as estrelas gigantes que iluminavam o fundo do mar
se apagaram depois.
E as antigas medusas que eram cabeças de mulheres novas
se enovelaram de cobras.
Raparigas e mancebos marinhos estão reduzidos a polvos e a
seres tristes
como as morsas e as obesas baleias. 
Ginetes aquáticos se reduziram a ridículos cavalos marinhos.
Muitos peixes se transformaram em aves, muitos cegaram pelo que viam.
Os pelicanos se escravizaram nos viveiros dos príncipes.
As cloacas da terra desembocam nas águas em que o Espírito pairou.
Os siris comem olhos de cadáveres irreconhecíveis.
Homens que comem siris cada vez mais tem escamas nos olhos
e vêm menos o mar e vêm menos o mar.
Onde está o mar? Onde está o meu mar? 



Fonte: "Obra Poética", Editora Getulio Costa, 1949.
Originalmente publicado em: "A túnica inconsútil", Editora Cultural Guanabara, 1938.



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