Poemas dos bons fradinhos de minha terra

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Poema de Jorge de Lima



I

Senhor tende piedade
de todos os que se humilham,
dos que choram, Senhor, dos que rilham os dentes,
                            tanta é a dor,
tanta é a desesperação!
De manhã fome, fome ao Sol-Por!
Senhor tende piedade dos suicidas,
dos vergastados na prisão!
Tende piedade dos leprosos,
           dos que são execrados como Judas!
Tende piedade
de todas as dores não ouvidas
estertoradas pelas bocas mudas!
Senhor tende piedade de Caim,
           dos criminosos
           sem perdão!
Dos que passam pela vida sem
ter ouvido nunca um "sim
           nunca um "vem".
Senhor tem de piedade!
                            Sem
vós toda humana miséria não
           terá nunca um fim,
todos os invejosos serão Judas,
           todos os fratricidas
acorrentados as heranças rudas
de sangues cancerosos
           e almas vencidas
                            serão,
           Senhor,
a maldição
dos que rilham
           os dentes, de impiedade,
sem jamais ter perdão!

II

Frei Valério
           o último fradinho do convento
                            ora.
Tudo é silêncio e turvo,
quedam longes
           sons absortos,
Ao crepúsculo o monastério
cresce as torres sombrias
como se fossem mãos juntas
                            e esguias.
Frei Valério alça a voz pelas
           almas defuntas.
E é tão sentida a voz e é tão suave a prece
que a mais temporã das noites desce,
acalenta os rumores que há no ar,
acende as luzes do convento
e acende no céu as primeiras estrelas.
Amarelido pelas penitências
Valério tem os membros seviciados.
Mas se o monge é velho, é-lhe a
           voz sonora
           e perpendicular!
           Frei Valério é curvo,
           e tem os membros tortos.
E a voz do Frei Valério,
como se viesse do chão
sobe, enche a nave
enche de roxo o silêncio das celas.
                            E é então
que todos os ângulos do convento,
todas as convergências,
todas as reintrâncias,
ouvindo aqueles lamentos, aquelas
lamúrias, aquelas ânsias,
           acordam ecos magoados:
E como outrora o noturno
           dos monges.
cantam os ecos pelos monges mortos. 



Fonte: "Obra Poética", Editora Getulio Costa, 1949.
Originalmente publicado em: "Poemas", 1927.

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