Os beijos

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Poema de Gonçalves Dias



Amo uns suspiros quebrados
Sobre uns lábios nacarados
A gemer, a soluçar;
Como a onda bonançosa,
Que numa praia arenosa
Vem tristemente expirar!

Amo ouvir uma voz pura,
Uns acentos de ternura,
Que trazem vida é calor;
Que se derramam a medo,
Como temendo o segredo
Revelar do oculto amor!

Amo a lágrima que chora
Terna virgem que descora,
Presa d’interna aflição;
Amo um riso, um gesto vivo,
Um olhar honesto, esquivo,
Que alvoroça o coração.

Porém mais que o olhar honesto
Mais que o riso e brando gesto.
Mais do que o pranto a correr,
Mais que a voz, quando amor jura
Que um suspiro de ternura,
Que vem aos lábios morrer;

Amo o leve som de um beijo,
Quando rompe o véu do pejo,
Mal sentido a murmurar:
É viva flor de esperança,
Que nos promete bonança,
Como a flor do nenúfar.

Mente o olhar mesmo em donzela,
Mente a voz que amor asseia,
Mente o riso, mente a dor;
Mente o cansado desejo;
Só não mente o som de um beijo,
Primícias de um longo amor!

Beijos que são? Duas vidas,
São duas almas unidas,
Que o mesmo fogo consume:
São laço estreito de amores;
Porque são os lábios flores
De que os beijos são perfume!

Beijos que são? - Ai do peito -
Selo breve, laço estreito
Dum cansado bem querer:
Saibo dos gozos divinos,
Que nos lábios femininos
Quis Deus bondoso verter.
Já por feliz me tivera,
Triste de mim! se eu pudera
Dizer o que os beijos são:
Sei que inspiram luz e calma,
Sei que dão remanso à alma,
Que trazem fogo à paixão.

Sei que são flor de esperança;
Que nos prometem bonança,
Como a flor do nenúfar:
Quem fruiu um ledo beijo,
Ter não pode outro desejo,
Nada já pode gozar.
Sei que deles não se esquece
Triste velho, que esmorece
À míngua de coração:
Viva estrela em noite escura,
Viva brasa em cinza pura,
Em neve algente um vulcão.

Sei que fluí-los uma hora
De ventura sedutora,
É subir em vida aos céus,
É fugir da vida escassa,
Roubar ao tempo que passa
Um dos momentos de Deus.

Sei que são flor de esperança;
Que nos prometem bonança,
Como a flor do nenúfar!
Quem os fruiu, o que espera?
Já gozou, já não tem era,
Já não tem mais que esperar.



Fonte: "Poesia completa e prosa escolhida", Editora José Aguilar, 1959.
Originalmente publicado em: "Últimos Cantos", 1851.


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