Noturno da mosela - Manuel Bandeira

Manuel Bandeira, maior poeta da primeira geração do modernismo brasileiro.

Poema de Manuel Bandeira



A noite... O silêncio...
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não para! que não para!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge - e sinto que foge inutilmente!

O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...

Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!

Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.

Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...

No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...




Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 2001.
Originalmente publicado em: "O Ritmo Dissoluto", 1924.